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Resenha – Zac e Mia

Publicado em 8 de maio de 2018
- Drama, Novo Conceito, Romance, Sick Lit

LIVRO ESPECIALMENTE INDICADO PARA fãs de livros que nos mostram como é a convivência de sujeitos e familiares com doenças e a perspectiva de morte quando tudo o que se quer é ter esperanças. Com uma escrita profunda mas construída de forma leve e divertida, Zac e Mia é sensibilizador e tocante, para leitores jovens e adultos que sentem sem rodeios.

Sei que os botões de descarga duplos são bons porque são amigos da natureza e tudo o mais, mas, às vezes, são confusos. Aperto meia descarga ou descarga inteira? De vez em quando preciso de um botão intermediário.

Se, depois desta leitura, algo se fixara em minha mente, fora a sensação, mais do que o pensamento ou a certeza, de como a vida é extremista. Oito ou oitenta. Vida ou morte, flores ou navalhas. Por vezes, quis uma válvula de escape, uma opção C entre a A e a B, possibilidades essas que não existiam. Zac e Mia provam de sua intensidade enérgica por inteiro e, muitas vezes, eles não se saem tão bem. Há muitas recaídas. Pensamentos tão auto-destrutivos que são uma forma de câncer por si só, sempre se espalhando e trazendo as considerações boas para o seu lado agressivamente ameaçador.

De todos, eu sou o menos corajoso. Nunca me alistei para essa guerra. A leucemia me convocou, essa filha da p*ta.

Este livro, ao contrário do que vocês podem estar imaginando, não me mostrou que a vida não se passa sempre no máximo e no mínimo, nem me fez mudar de ideia quanto a isso. Não. Ele me mostrou que, cheia de descomedimentos ou não, há aquela linha tênue em que não vivemos por seu extremismo. Esta leitura me mostrou o que é viver entre esses limites, viver no intermediário da maneira mais bela e prodigiosa que Zac e Mia conseguiram achar. Viver enquanto os limites não foram impostos como titulares no campo, apesar de nunca saírem da reserva.

Não posso deixar de ser honesta com vocês: fui insensível com Mia no meio da história. Ela me aborreceu. Zac sempre fora meu preferido por sua aura otimista mesmo sendo conhecedor de toda a matemática de sua situação. Um dez de dez, esse Zac. Mas, ao longo da leitura, você vai se afeiçoando aos dois e, no final, os verá como se eles fossem amigos de longa data, e não de quase trezentas páginas lidas.

Gosto quando ela é dura comigo, sabendo que posso aguentar. Ela não fica cheia de cuidados ao redor das coisas ruins nem esconde o que está pensando. Se ela sente alguma coisa, ela diz. Ela mostra. Ela diz e faz todas as coisas que os outros escondem. Ela não é previsível nem segura. Ela não fala besteiras, da forma como a maioria das garotas fala. Ela está viva, apesar de tudo, chutando e gritando e praguejando. Lutando, apesar de tudo.

Este livro me deixou a sós com questionamentos profundos, mesmo com suas palavras mais leves. Fora uma reflexão imersa em letras impressas em lágrimas, sorrisos, Lady Gaga e referências australianas das quais pude compreender pouca coisa. Vejam bem: eu gosto de livros com tons suaves, apreciadores de sacanagens (e digo isso com um sorriso nos lábios, porque “apreciadores de sacanagens” é uma forma bonita de pincelar as coisas), de diálogos simples, clichês costumeiros e personagens superficiais. Há momentos que é exatamente isso que queremos, e eu digo isso por mim, pelo menos: há momentos que queremos a superficialidade por estarmos exaustos de submergirmos em nosso próprio oceano de devastadora profundidade, pressão e seres desconhecidos. Eu aprecio muito livros assim.

Entretanto, como toda moeda tem suas duas faces, não há nada comparado a um livro que mexe com você, que faz estremecer as rochas e placas tectônicas de suas (pequeno ou não, profundo ou raso, salgado ou doce, doce, doce) águas e faça ondas, em seus olhos, peito ou cérebro. Não importa aonde ou como, desde que faça. E, esses livros… esses são os preciosos, os que carregamos na mente por mais tempo e que confundem nossos espíritos tão assumidamente racionais para os evolucionistas.

Na escola, as chances eram diretas:
Se um dado é jogado, qual é a probabilidade de sair um 3?
1:6
Se dois dados são jogados, qual é a probabilidade de saírem dois 3?
1:36
Eu gostava de matemática. Eu gostava de saber onde estava. Mas agora?
Se um homem de 32 anos tem um tumor cerebral removido, então depois de oito meses o câncer retorna, quais são as chances de sobrevivência?
1:11
Converta o resultado para porcentagem.
9,09%
Não há como escapar da matemática aqui.

Por ter escrito parte desta resenha ao som de The Scientist, durante a leitura da maravilhosa Virginia Woolf, ou uma confusa conjunção das duas situações, ela (assim como o livro da Betts) murmura por minha cabeça como o som do oceano sussurra por nossos ouvidos – é relaxante e apenas uma pontinha de toda a sua extensão, uma amostra do que pode ser. Minha resenha, por assim dizer, é uma pontinha de toda a extensão de Zac e Mia, e uma muito da pessoal, já que, como alguns, desfrutar da beleza da praia não paga aturar a coceira da areia, e, para outros, mergulhar na limitada e limpa piscina não equivale a se perder na maresia, cada livro toca cada um a seu jeito.

Este fora sobre conhecer a matemática das coisas, abraçar a racionalidade que nos fora evoluída (ou dada, como pontos divergentes podem apontar), mas nunca esquecermos que há incógnitas que a matemática não explica e que nem as palavras chegam muito bem a alcançar, embora devamos experimentá-la para sabermos de fato do que se trata. Assim como descrever a praia não pintará sua magia, ouvir falar, deixar pra lá, desistir, ignorar… focar só na lógica enquanto há todo um mar de conceitos enevoados para se ver (se para tirar a fumaça que o deixa nublado ou vê-la como parte segregadora dele, vai de quem vê e do que ela vê…) e coisas ilogicas para se presenciar… não é viável. Nem aconselhável.

Meter as caras para ver o que acontece é uma expressão muito crua, feita daquilo que ela fora criada – riscos. Os possíveis resultados estão na sua frente, mas o que você verá em seu percurso, o que aprenderá com eles e as novas oportunidades que lhe aparecerão no caminho… tudo isso não está lá no seu 1 +1 = 2. Arrisque-se. Ninguém descobriria espécies raras e cidades perdidas nos oceanos se não enchesse o estoque de oxigênio e vestisse a roupa de mergulhador e, frisando, metesse as caras. Muitos podem ser devorados por tubarões no caminho, é claro. Mas quem não sairá encantado e admirado, mesmo que seja com novas feridas?

O que eu não faria para manter o sorriso no rosto dela? Ouvir aquela risada, tê-la lutando ao meu lado, e não contra mim. Quando estamos juntos, ninguém cai, desaba ou desiste. Sei que não há garantias, mas agora tenho a Mia, dez de dez, mais linda e surpreendente do que nunca.
E eu sou o cara mais sortudo de todos.

Um livro que não precisa ser longo para ser tocante, Zac e Mia é mais que recomendado. Um amor só.


Título: Zac e Mia
Autora: A. J. Betts
Lançamento: 2015
Editora: Novo Conceito
Páginas: 288
Sinopse: A última pessoa que Zac esperava encontrar em seu quarto de hospital era uma garota como Mia – bonita, irritante, mal-humorada e com um gosto musical duvidoso.
No mundo real, ele nunca poderia ser amigo de uma pessoa como ela.
Mas no hospital as regras são diferentes. Uma batida na parede do seu quarto se transforma em uma amizade surpreendente.
Será que Mia precisa de Zac? Será que Zac precisa de Mia? Será que eles precisam tanto um do outro?
Contada sob a perspectiva de ambos, Zac e Mia é a história tocante de dois adolescentes comuns em circunstâncias extraordinárias.

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1 comentário

  • Ludyanne Carvalho

    Laaaaaaaaaaayla, quanto tempo!!
    Menina, deixa eu te contar, comecei a ler fantasia. \o/ Já li Crônicas de amor e ódio, ACOTAR e em breve vou ler A rebelde do deserto. Estou gostando cada vez mais do gênero (suas resenhas sobre o gênero nem influenciaram 🙄), mas procuro por fantasias românticas.
    Sou muito leitora de fantasia. 😎
    Gente , que bom ver esse blog retornando.

    Uau… O que dizer depois desse texto? Minhas palavras se perdem quando leio algo tão tocante e profundo como sua resenha; e se ela é apenas a ponta, imagino como seja a sensação de ler o livro por inteiro.
    Vi Zac e Mia algumas vezes pelo meu feed e pela minha mania de visitar livrarias online, achei a capa bonita, mas nunca parei para ler sinopse nem saber mais detalhes. Falha minha.
    Amo histórias assim: que nos toca, nos faz refletir e arranque algumas lágrimas. É maravilhoso saber que a autora escreve de maneira leve.
    Valeu a indicação.

    Beijos

    8 de maio de 2018 às 12:51 Responder
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