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Resenha – Todo mundo vê formigas

Publicado em 11 de setembro de 2017
- Gutenberg, Resenhas, Young Adult

LIVRO ESPECIALMENTE INDICADO PARA quem gosta de narrativas que misturam realidade e fantasia; para quem curte histórias que, através de muitas analogias, descascam o ser humano expondo todas as dores, angústias, inseguranças, gentileza, amor e esperança que cabem no peito. Ideal para ler no momento em buscamos uma narrativa que aborde temas difíceis como bullying, problemas familiares adolescência e relacionamentos interpessoais, tudo isso com uma escrita simples, fluida e divertida.

Quando a situação está difícil, o que você costuma fazer para lidar com tudo? Que mecanismos de defesa utiliza? A saber: mecanismos de defesas são, de acordo com a psicanálise, maneiras com as quais lidamos com situações que nos causam dor, angústia, sofrimento. São recursos que o ser humano encontra, de maneira consciente ou não, para lidar com tudo aquilo que aperta o peito. Exemplo? Tenho sim. Quando a gente come mais do que deve, ou gasta mais do que pode, para preencher aquele vazio existencial que nos incomoda. Ou quando a gente projeta no outro uma opinião ou sentimento que é na verdade nosso. Ou ainda, quando a gente sublima algo que considera ruim transformando em algo mais ‘socialmente aceito’, por assim dizer. Neste livro o protagonista também tem um mecanismo de defesa. Ele vê formigas.

‘Filho, você precisa dar um jeito de tirar isso daí’, ele diz e me cutuca gentilmente no coração. ‘Você não pode guardar tudo isso aí dentro.

Desde os 7 anos, Lucky Linderman sofre bullying na escola. Agora, aos 15 anos, além de viver todas as angústias inerentes a essa fase do desenvolvimento, ele percebe que as coisas não estão muito fáceis. Seu agressor costuma estar sempre por perto, mas é difícil lidar com Nader McMillan porque ele, além de um completo babaca, é filho de um advogado daquele tipo ‘sangue nos olhos’, ou seja, reclamar para que se é provável que não dê em nada? Então ele segue o conselho dos pais e finge que nada está acontecendo, não reage, não toma uma atitude, simplesmente aguenta as agressões físicas e verbais enquanto seu estado emocional fica cada vez mais confuso.

Em casa as coisas também não estão muito boas. Seu pai – que também pode ser considerado uma tartaruga – se esconde no seu ‘casco’ sempre que precisa lidar com algo que o desagrada. Pode ser que boa parte desse comportamento seja influenciado pelo fato dele ter crescido sem o próprio pai, sem saber se o mesmo estava vivo ou se foi morto na guerra; esperando por uma notícia que nunca veio e precisando enterrar um corpo que nunca apareceu. O fantasma desse pai, entretanto, é mais presente do que qualquer outra coisa. Um trauma que a família carrega.

A mãe de Luck, embora mais presente tanto fisicamente quanto emocionalmente se comparada com o pai, também encontrou um mecanismo de defesa curioso. Ao invés de lidar com os problemas de frente, de passar mais tempo em casa com a família ou simplesmente conversar de maneira aberta sobre o que a incomoda – principalmente se tratando da sua vida conjugal – prefere nadar. Isso mesmo, ela passa o maior tempo possível na piscina, como se fosse uma espécie de lula atlética que não sai da água. Isso porque se você se distanciar dos problemas eles magicamente vão desaparecer, certo? Errado. Muito, muito errado.

Se juntarmos isso ao fato de que Lucky todas as noites sonha com o avô – um sonho com um quê de delírio e fantasia – e ao fato dele ter feito uma pergunta esquisita na escola, levando todos a crerem que ele estava com ideação suicida, temos aqui um drama adolescente ( e muito humano) daqueles que não são tão difíceis de encontrar na vida real. É por isso que Lucky e sua mãe viajam, com o objetivo de se distanciar (ainda mais) dos problemas, de modo que seja possível refletir e quem sabe observá-los através de uma outra perspectiva.

Durante a viagem o jovem percebe que às vezes os problemas dos quais tentamos fugir acabam nos acompanhando, e que quando isso acontece talvez seja o momento de encarar tudo de frente. E esse é o ponto principal do livro. Toda a trajetória percorrida pelo adolescente através das dores, angústias, dúvidas e fantasias. Através das amizades que faz (e aqui abro um parêntese para falar que jovens empoderadas aparecem e fazem referência a belíssima obra que é Os monólogos da vagina), do tempo de qualidade que se permite passar com a mãe, por conta dos sonhos que tem com o avô e todas as questões levantadas ali enquanto Lucky está meio dormindo, meio acordado.

Tudo isso – o enfrentamento necessário, a insegurança diante do novo, o fortalecimento emocional que surge quando lidamos com o que nos causa dor – é como se fosse pedacinhos de tecido que quando se juntam, quando são costurados,  se  transformam numa colcha de retalhos que é a vida. Se transformam naquele tipo de colcha que é capaz de aquecer e trazer conforto.

Fingir me faz ficar suando de nervoso toda vez que alguém tem uma conversa sincera comigo. Fingir me faz ter um medo irracional de que essa pessoa possa dizer alguma verdade sobre mim. Fingir me faz não conseguir lidar com a verdade. Mesmo que ela seja engraçada.

De maneira curiosa, divertida e bem sarcástica, a autora apresenta um Young Adult daquele tipo que pode ser lido por qualquer pessoa. Ela aborda questões que estão aí na nossa cara todos os dias, e de forma sutil – mas às vezes nem tanto – ela deixa claro que todo mundo tem problemas, todo mundo vê formigas. Durante a leitura a gente percebe que tem nas mãos a possibilidade de transformá-las em nossas amigas dançantes ou simplesmente travar e levar mordidas daquelas que deixam o corpo cheio de calombos vermelhos e que coçam de maneira insuportável.

Você aí que está lendo essa resenha agora, já viu alguma formiga hoje?

Já fez algo pra sair de cima do formigueiro?

Precisa de ajuda?

 


Livro: Todo mundo vê formigas
Autor: A. S. King
Lançamento: 2016
Editora: Arqueiro
Páginas: 240
Sinopse: A 1ª coisa que você precisa saber é que tudo o que eu fiz foi uma pergunta idiota. A 2ª coisa que você precisa saber é que essa pergunta idiota me trouxe muitos problemas com Nader McMillan, o cara que faz bullying comigo desde que eu tinha 7 anos. E uma semana atrás ele pegou bem pesado comigo. Foi aí que eu comecei a ver formigas. A 3ª coisa que você precisa saber é que meu avô Harry desapareceu durante a Guerra do Vietnã e nunca foi encontrado. Então, todas as noites, eu tento resgatá-lo da sua prisão na selva em meus sonhos. Mas nunca consigo. A 4ª coisa que você precisa saber é que minha mãe é uma lula e meu pai, uma tartaruga. Ela tenta afogar os seus problemas nadando o dia todo em uma piscina pública, e ele nunca está por perto e desaparece dentro da casca no primeiro sinal de confronto. Então, se juntarmos Nader McMillan, a minha pergunta idiota, vovô, e tudo o mais na minha vida, somos só eu e as formigas. “A grande sacada de Todo mundo vê formigas é que ele vai ajudá-lo a entender que as pessoas que parecem muito diferentes de você, na verdade são muito parecidas. Faça um enorme favor a você mesmo e leia este livro!” – James Patterson, autor da série best-seller Bruxos e Bruxas.

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7 Comentários

  • Ludyanne Carvalho

    Aiai, essas resenhas! 💖
    Infelizmente, quase todos temos esse mecanismo de defesa. Por vezes me sinto uma tartaruga, me encolhendo no casco perante qualquer situação que seja difícil de lidar. E a fuga é uma péssima ideia. Os problemas vão juntos, é inevitável.
    Apesar de que encarar é uma tarefa árdua.
    Por tudo isso eu super me identifiquei com esta resenha.
    E tem um tema super necessário, o bullying. Muito importante falar desse assunto para que possa ajudar quem enfrenta essa situação.
    E acredito que seja lindo ver Lucky encarando os seus problemas.
    E essa capa é super bonita, as formigas na capa dão um charme a mais.

    Beijos

    11 de setembro de 2017 às 12:47 Responder
  • Lili Aragão

    Oi Krisna, é bem verdade que todo mundo tem problemas, pequenos, grandes, intensos, simples, eles existem, e achei a premissa dessa história bem legal, tratar sobre como temos reações diferentes, mecanismos de defesa que criamos é bem real, é humano e imagino que renda uma ótima história, sendo legal ver o protagonista crescer, aprender, enfrentar, se adaptar. A resenha tá ótima e espero ter a oportunidade de ler essa história futuramente 😉

    12 de setembro de 2017 às 09:06 Responder
  • Hérica Lima

    Parece ser um livro muito bom e realista. Adoro livros jovens que nos fazem refletir sobre as coisas que fazemos e as palavras que falamos para as pessoas.
    Ainda não tinha livro nada sobre esse livro e agora acho que lerei. Que capa mais linda. Adorei a sinopse.

    16 de setembro de 2017 às 12:08 Responder
  • Franciele Débora

    Olá, tudo bem?
    Adorei a resenha do livro e como todo mundo tem problemas na vida sejam eles grandes ou pequenos. Adorei a premissa do livro e adoro livros que nos fazem refletir sobre a vida. Adicionei na minha lista e que capa linda!
    Beijos.

    17 de setembro de 2017 às 22:44 Responder
  • Pamela Mendes

    Não conhecia esse livro, mas fiquei bem interessada nele. Eu gosto de ler Young Adults assim de vez em quando, e esse livro parece ser ótimo. Já deu pra perceber que o Lucky apesar de ser novo já passou por bastante coisa na escola e em casa. Gostei muito desse enredo e da capa. Com certeza quero ler o livro =)
    Bjss ^^

    18 de setembro de 2017 às 00:52 Responder
  • Marta Izabel

    Oi, Krisna!!
    Gostei muito da resenha do livro e todos nos temos problemas na vida mas cabe a nos sabermos como melhor resolve- los e como vamos trata-los na nossa vida!! Gostei muito da premissa do livro e adoraria apreciar essa leitura!! Amei a indicação!!
    Bjoss

    24 de setembro de 2017 às 21:22 Responder
  • rudynalva

    Krisna!
    Lendo sua resenha, achei um tanto confuso o livro, muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo, porém o fato de ainda assim podermos apreciar vivenciar diferenciadas e vários pontos de vista., parece um livro onde podemos analisar algumas coisas e por isso, vale a pena a leitura.
    Desejo uma semana maravilhoso!!
    “O primeiro passo para a cura é saber qual é a doença.” (Provérbio Latino)
    Cheirinhos
    Rudy
    TOP COMENTARISTA DE SETEMBRO 3 livros, 3 ganhadores, participem.

    24 de setembro de 2017 às 21:41 Responder
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