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Resenha – Quarto

Publicado em 2 de outubro de 2017
- Drama, Verus

LIVRO ESPECIALMENTE INDICADO para leitores que buscam leituras maduras e que não só questionam como mudam o que temos tanta certeza de ser certo ou errado. Cativante, emotiva e marcante, Quarto, livro que inspirou o filme Quarto de Jack, é cheio de surpresas e lágrimas e, acima de tudo, aprendizado. Para ler em naqueles momentos em que nos permitimos sentir empatia pela dor dor do outro, e pela possibilidade que cada um tem de ressignificar a própria história.

O livro Quarto, de Emma Donoghue, é como o Quarto em que Jack vivia. Seus componentes eram pequenas coisas além do próprio Jack e da Mãe – os móveis, a Planta, a Cobra de Ovos. O que faz esse livro, além dos personagens, são as pequenas sacadas que Jack dá, com tamanha inocência e pureza e, mesmo assim, tão ricas de significado.

– Que coincidência! Está gostando daqui?
– Estou gostando do bacon.
Ele riu, eu não sabia que tinha feito uma piada de novo.
– Também gosto de bacon. Até demais.
Como gostar pode ser demais?

Jack é muito inteligente. Sabe falar e ler todas as palavras do mundo. A Mãe é sempre linda – e, sob minha ótica, um exemplo de força a ser temida. Porque o perigo não reside nos planos que falham, e sim na esperança que sempre cria outros para substitui-los. O perigo reside nos óculos que vestimos e no grau que aumentamos ou diminuímos, aparece no momento em que vemos no que poderia ser o grande inimigo um grande salvador. E fora isso o que a Mãe fez ao ver Jack como um milagre.

Eles ficaram presos por anos – sete anos a Mãe e Jack desde que nascera há cinco anos – em um lugar pequeno e protegido, onde nenhum barulho chega ao exterior e não há saídas. Seu captor, o Velho Nick, aparece pela noite e deixa “presentes” uma vez por semana, que nada são além de coisas minimamente necessárias para que a vida seja possível.

Contei nossa respiração de novo. Tentei me morder no ombro, e doeu. Em vez de pensar nos macacos, pensei em todas as crianças do mundo, em como elas não são da televisão, são reais, elas comem e dormem e fazem xixi e cocô feito eu. Se eu tivesse uma coisa afiada e epetasse elas, elas sangravam, se eu fizesse cócegas, elas riam. Eu queria ver as crianças, mas fico tonto por elas serem tantas, e eu sou um só.

Vivemos, por 349 páginas, o que eles vivem. Somos jogados para todos os lados; inseridos na indução quando tudo é dedução; inseridos num pequeno mundo quando tudo o que conhecemos são os aspectos desconhecidos do nosso próprio gigante mundo; somos confrontados com a minoria encarando a maioria; com o individual rivalizando com o geral; com dois humanos retirados da vida em grupo tornando a viver em sociedade.

De noite, na nossa cama que não é a Cama, apalpei o edredom, que é mais gordo do que era o Edredom. Quando eu tinha quatro anos, não sabia do mundo, ou achava que era tudo história. Aí a Mãe me falou dele de verdade e eu achei que sabia tudo. Mas, agora que estou no mundo o tempo todo, de verdade não sei muita coisa, estou sempre confuso.

Tudo, para Jack, era o Quarto. Ele não sabia que existia algo por trás daqueles onze por onze pés. Não sabia nem mesmo que as pessoas na TV eram reais. Por isso fora impossível para ele compreender porquê a Mãe queria sair de lá. Ele se perguntava: por que o Velho Nick era ruim, se até presentes de domingo ele trazia? Por que um lugar seria desejável se este não fosse o Quarto?

No mundo, eu noto que as pessoas vivem quase sempre tensas e não têm tempo. Até a Vovó sempre diz isso, mas ela e o Vopô não têm emprego, então eu não sei como as pessoas empregadas fazem o trabalho e toda a vida também. No Quarto, eu e a Mãe tínhamos tempo pra tudo. Acho que o tempo é espalhado muito fino em cima do mundo todo, feito manteiga, nas ruas e nas casas e nas pracinhas e nas lojas, por isso só tem um tiquinho de tempo espalhado em cada lugar, e aí todo mundo tem que correr pro pedaço seguinte.

E é por isso que esta é uma leitura tão avassaladora – nós redescobrimos o mundo por espectros novos e surpreendentemente acessíveis. São verdades duras, são aspectos frívolos, são rótulos inadmissíveis que não queremos ver. Eles estão bem alí, alguns centímetros/olhares/toques/pesquisadas/pensamentos de distância.

Após a leitura, somando os pensamentos profundos, multiplicando as dores, igualando as diferenças, pergunto-me qual lado seria mais fácil para Jack viver – o Quarto ou o Lá Fora. Um lugar com só um mal do mundo, ou outro com todos; um lugar com a Mãe e suas brincadeiras, o outro com a Mãe, a Vovó, o Vopô, o Tio Paul e milhares de jogos; ser Jack, filho amado, companheiro único e inigualável, ou Menino, entregue ao orfanato, com novas chances novas possibilidades e novos NOVOS. Essa fora uma questão que fez tremer minhas mãos e arrancar os cabelos; fora uma questão que quase levou a Mãe pro Céu mais cedo.

– Por que ele é tio?
– Isso quer dizer apenas que ele é irmão do Leo. Todos os nossos parentes, agora você também é parente deles – disse a Vovó. – O que é nosso é seu.
– Lego – disse o Vopô.
– O quê? – ela perguntou.
– É como o Lego. Pedacinhos de famílias grudados uns nos outros.
– Isso eu também vi na televisão – contei.
A Vovó me encarou outra vez.
– Crescer sem Lego – ela disse ao Vopô -, eu simplesmente não consigo imaginar.
– Aposto que há uns dois bilhões de crianças no mundo que dão um jeito, de algum modo – ele respondeu.

Esta não é uma leitura para matar o tempo como a Mãe tomava os remédios para matar a dor. Esta não é uma leitura para ler apenas por ler; é pra se saborear, regurgitar, virar vaca e fazê-la passar por quatro estômagos, só para então digerir e ficar com todos os nutrientes que precisamos. Esta não é uma leitura que te mergulha em páginas e depois espera que você a guarde na prateleira: é uma leitura que se destina ao seu coração, e não a estante.

– Cuidado.
Por que as pessoas só dizem isso depois do machucado?

Algo que sobreviverá ao ácido do estômago e ao dissecar de líquidos do intenstino grosso. Algo que, se bem lido, irá com você pro caixão e então para o Céu.

– A Vovó disse que tem mais dele.
– O quê?
– Pessoas como ele, no mundo.
– Ah – disse a Mãe.
– É verdade?
– Sim. Mas o segredo é que há muito mais gente no meio.
– Onde?
A Mãe ficou olhando pela janela, mas não sei pra quê.
– Em algum lugar entre o bom e o mau – ela disse. – Pedacinhos dos dois, grudados um no outro.

Este livro é um exemplo de um lugar entre o bom e o mau, cheio de pedacinhos de ambos grudados um no outro. É uma glória e uma maldição, te faz vibrar e te faz sofrer, mas é aí que está a graça. Nunca sabemos qual será nossa reação ao pegar uma obra original em mãos, mas só sei que gostaria de poder voltar naquele pontinho que antecede a descoberta maravilhosa de que nada no mundo se comparará a esse livro, aquela sensação deliciosa de que você não poderá esquecê-lo jamais. É, realmente, cheio de pedacinhos bons e maus grudados e juntinhos, se você parar pra pensar.


Título: Quarto
Autor: Emma Donoghue
Lançamento: 2011
Editora: Verus
Páginas: 350
Sinopse: Para Jack, um esperto menino de 5 anos, o quarto é o único mundo que conhece. É onde ele nasceu e cresceu, e onde vive com sua mãe, enquanto eles aprendem, leem, comem, dormem e brincam. À noite, sua mãe o fecha em segurança no guarda-roupa, onde ele deve estar dormindo quando o velho Nick vem visitá-la.

O quarto é a casa de Jack, mas, para sua mãe, é a prisão onde o velho Nick a mantém há sete anos. Com determinação, criatividade e um imenso amor maternal, a mãe criou ali uma vida para Jack. Mas ela sabe que isso não é suficiente, para nenhum dos dois. Então, ela elabora um ousado plano de fuga, que conta com a bravura de seu filho e com uma boa dose de sorte. O que ela não percebe, porém, é como está despreparada para fazer o plano funcionar.

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10 Comentários

  • Ludyanne Carvalho

    Aaah, Layla…
    Sinto meu coração se apertar só de ler esta resenha, imagina o livro!?
    Que vontade de abraçar Jack e sua mãe, protegê-los do mundo e do velho Nick. 7 anos… Estou chocada com esta história.
    Gosto de um bom drama, aqueles que nos levam as lágrimas e fica pra sempre na memória.
    Mas Quarto é um livro que necessita de muita estrutura emocional, quando envolve crianças nossos emoções ficam mais fragilizadas.
    Parece lindo conhecer esse Quarto através de Jack e sua inocência.
    E esta resenha está magnífica, Layla, parabéns!

    Beijos

    2 de outubro de 2017 às 21:45 Responder
    • Layla Magalhães

      É exatamente esse tipo de livro, Ludy! E eu precisei de um grande preparo para lê-lo, é angustiante.

      Eu costumo recomendá-lo e dizer “olha, se você não quer dar uma chance pro livro, tenta o filme, que é fiel e tão bom quanto!”, então digo o mesmo pra você. É uma história chocante, mas muito agregadora, e um dos melhores livros que li na vida. É sensacional.

      Obrigada pelas lindas palavras, Lu! Acho que, quando minha auto estima estiver lá no meu pé, virei aqui reler seus comentários pra dar um up! Hahahaha

      Beijos grandes

      12 de outubro de 2017 às 17:32 Responder
      • Ludyanne Carvalho

        Imagino. Vou ver se consigo assistir, já é um preparo para a leitura.

        Hahaha imagina, elogios mais do que merecidos.

        Beijos

        12 de outubro de 2017 às 21:19 Responder
  • Lili Aragão

    Oi Layla, o livro parece ser angustiante, e se tem as perguntas sobre qual lado seria melhor pra Jack, fiquei pensando na mãe, que criou um mundo de amor em meio ao desespero, como essa personagem deve ser forte e como essa história deve ser marcante. É muito bom quando pegamos uma história que sentimos que não vamos esquecer nunca de tão impactante e curti muito a resenha e a dica, anotei pra ler futuramente 😉

    3 de outubro de 2017 às 09:01 Responder
    • Layla Magalhães

      É uma das personagens mais fortes que já tive chance de conhecer, Lili! Ela é muito incrível.

      Eu li faz… uns dois anos, acho. Talvez três. E até hoje é muito marcante pra mim.

      E recomendo que, se você não conseguir ler, que tente ver o filme. É fiel, tem uma produção maravilhosa e ganhadora de oscar, e plus, é super emocionante.

      Torço para que você possa conhecer a história da Mãe e do Jack em breve!

      12 de outubro de 2017 às 17:34 Responder
  • Pamela Mendes

    Esse livro é muuuito bom! Eu espera um livro bem simples quando comecei a ler, mas me surpreendi muito com a história. Essa história é bem forte, e bem emocionante. Já faz um tempo que eu li esse livro, mas foi um livro muito marcante para mim. Eu já assisti ao filme também, e também adorei o filme, e é uma ótima adaptação (se você não tiver assistido ainda, eu indico muito o filme!).
    Adorei a resenha <3
    Bjss ^^

    12 de outubro de 2017 às 21:12 Responder
  • Isabela Carvalho

    Oi Layla 😉
    Ainda não tive a oportunidade de ler o livro Quarto mas assisti ao filme O Quarto de Jack, e foi um longa emocionante e que mexeu com meus sentimentos, e acredito que com os de todos!
    Amei sua resenha, deu para notar que você transpareceu a emoção que sentiu lendo o livro, e só por isso já sei que vou amar a leitura. É incrível pensar quantas pessoas sofrem na mão pessoas como o Velho Nick, e mais surreal ainda pensar que possa existir alguma criança como o pequeno Jack, que sofreu a vida inteira sem saber, ficando no escuro.
    Se a leitura for tão emocionante quanto o filme, e acredito que pela sua resenha seja mais, vou virar mais fã!
    Bjos

    13 de outubro de 2017 às 15:06 Responder
  • Gabrielle Batista

    Assisti ao filme e tenho certeza de que foi a produção que mais me marcou.
    Não consegui adquirir o livro antes de ver o filme (odeio quando isso acontece haha) mas finalmente Quarto é minha próxima leitura e depois dessa resenha incrível, mal posso esperar para lê-lo.
    A história simplesmente me comove MUITO e realmente me faz sentir no lugar de Jack e sua mãe, fazendo com que cada segundo seja uma torcida para que eles consigam fugir do Velho Nick.
    Espero que assim como no filme, eu consiga ficar “vidrada” na história e consiga me emocionar de novo.

    15 de outubro de 2017 às 01:09 Responder
  • rudynalva

    Layla!
    Quero ler o livro para entender porque eles vivem dentro desse quarto durante tanto tempo.
    E por que o Nick os fez prisioneiros durante tanto tempo.
    O que achei mais incrível é que todo o livro é pelo ponto de vista do Jack, uma criança que não teve oportunidade de viver durante sua infância as experiências básicas de uma criança, tem toda uma ingenuidade e pureza, deve ser bem emocionante.
    E claro que quero assistir o filme também.
    Semaninha alegre e feliz!
    “No fundo, morrer não seria nada. O que não suporto é não poder saber como terminará.” (A. Amurri)
    Cheirinhos
    Rudy
    TOP COMENTARISTA DE OUTUBRO 3 livros, 3 ganhadores, participem.

    15 de outubro de 2017 às 17:41 Responder
  • Marlene Conceição

    Oi Layla.
    Você tem realmente talento para a escrita.
    Eu ja tinha visto falar dessa obra, porém nem li o livro e nem assistir sua adaptação, porque assim como você, não acho que essa obra seja para ser lida apenas pelo ler e sinto que ainda não é o momento para mim, eu adoro que o livro traz reflexões e lições de vida, que apesar da triste história é algo que vale a pena ser lido.
    Bjs.

    15 de outubro de 2017 às 21:48 Responder
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