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Resenha – O Escravo de Capela

Publicado em 17 de agosto de 2017
- Faro Editorial, Nacional, Resenhas, Thriller

LIVRO INDICADO ESPECIALMENTE PARA: leitores que gostam de livros que narram fatos históricos principalmente História do Brasil, folclore nacional e acontecimentos sobrenaturais. Leitura ideal para aqueles momentos em que buscamos uma narrativa  com grande tensão psicológica.

O escravo de capela foi meu primeiro contato com a obra de Marcos DeBrito, que já publicou outros dois livros. Uma das minhas paixões são livros que partem de fatos históricos reais para construir a base da narrativa ficcional. E Marcos DeBrito obteve sucesso em O escravo de capela. Fiquei encantada com o trabalho de pesquisa e a riqueza de detalhes que ficaram evidentes na construção do cenário deste livro.

O ano é 1792, final do século XVIII, o Brasil era comandado pelos senhores de engenho que se enriqueciam com o trabalho escravo. Antônio Batista da Cunha de Vasconcelos Segundo, primogênito de Antônio Batista, o grão-senhor da Fazenda Capela, é quem comanda à rédea curta o trabalho na lavoura de cana-de-açúcar. Antônio Segundo era temido pelos escravos, para ele era normal o uso excessivo de violência, a falta de controle e os castigos severos.

Sabola Citiwala é uma escravo recém-chegado à Fazenda Capela. Ele e outros escravos acabam de ser comprados para trabalhar no canavial. No primeiro dia de trabalho ele comete o erro de parar de cortar cana para admirar a imensidão da lavoura e depois começou a entoar uma canção em sua língua natal. Antônio Segundo não deixa passar. Sabola ainda não fala ou entende uma palavra em português e o feitor depois de falar e não ser compreendido, decide ensiná-lo através de um duro castigo.

Apesar de não entender o que o feitor lhe dissera, o tom de ameaça na voz era universal e não poderia ser mais claro.

Jonas, o empregado de maior confiança da fazenda precisa intervir para que Antônio Segundo não acabe matando o escravo no seu primeiro dia de trabalho. Foi ele quem preparou o feitor desde pequeno para assumir a função de fiscalizar o trabalho dos escravos e aplicar os castigos. A fazenda já perdeu vários escravos por conta do excessos violentos de Antônio Segundo.

Todos os dias depois do trabalho na lavoura os escravos eram obrigados a participar da missa e ouvir o sermão do padre na capela da fazenda. Eles que já não podiam falar na sua língua materna e passavam a ter novos nomes, também não tinham liberdade religiosa, o catolicismo era imposto como única religião permitida. Sabola mesmo muito ferido teve que participar.

Os negros mais antigos já estavam convertidos. As palavras de Deus, proferidas pelos lábios de um sacerdote, tinham forte poder de persuasão nas mentes sofridas que buscavam qualquer tipo de libertação. A celebração da eucaristia era acompanhada por olhares mais atentos do que impacientes. Os ainda incrédulos relutavam, mas sem força. Naquele momento cristão, estavam salvos da humilhação e da tortura; ajudando na construção de uma imagem apaziguadora daquele Deus novo.

Inácio Batista, o filho caçula, acaba de retornar à fazenda depois de estudar medicina por cinco anos na Universidade de Coimbra, em Portugal. Ele era completamente diferente do irmão mais velho, o tempo que viveu longe da fazenda acentuou ainda mais essas diferenças. Depois de ter contato com as novas ideias que estavam sendo difundidas na Europa passou a perceber ainda mais claramente como era desumano o tratamento dispensado aos escravos da Fazenda Capela. Desde de seu retorno os desentendimentos entre Inácio e o irmão eram constantes. Ele tenta sugerir outras formas de trabalho, mas tanto o pai quanto o irmão discordam veementemente. Mas Antônio Batista ainda tinha esperança que seus dois filhos cuidassem juntos da fazenda.

Na senzala Sabola conhece Akili Akinsanya, então chamado de Fortunato, o curandeiro da senzala. Os escravos feridos eram trazidos até ele para que fossem curados com ervas. Diziam que ele era um escolhido de Katendê, senhor das alquimias. Akili passa o tempo todo na senzala e não ficava acorrentado já que não conseguia mais andar. Ele foi pego fugindo e espancado por Antônio Segundo com requintes de muita crueldade.

Depois de contar sua história para Sabola, Akili percebe que ele não vai se render à servidão e se oferece para ensiná-lo a fugir. Ele estava esperando já fazia muito tempo por uma pessoa como Sabola. Mas antes ele pede algo em troca e quer saber se Sabola está disposto a tudo para fugir e cumprir a promessa feita. Ele hesitou um pouco mas acaba concordando. Akili tem um plano e pede que Sabola tenha paciência.

Somos espectadores de todos os desdobramentos deste plano de fuga nesta leitura que nos prende do início ao fim. Confesso para vocês que fazia muito tempo que não lia um livro assim. Através de uma obra de ficção o autor relembra os horrores sofridos pelos escravos no Brasil Colônia. Os africanos eram retirados de sua terra e perdiam completamente sua identidade, não podiam usar seu nome, falar sua própria língua ou praticar sua própria religião.

A privação de uso do próprio nome é castigo dos mais perturbadores, mesmo quando já se está acostumado a ser chamado por outro.

Fiquei muito feliz em ver um autor nacional retratando fatos da nossa história em seu livro. Acredito que é de extrema importância que cada vez mais autores escrevam livros que abordem elementos da nossa história. Nunca podemos nos esquecer de tudo o que aconteceu na construção de nossa sociedade e país, e apenas conhecendo nossa história poderemos evitar cometer os mesmos erros do passado.

Marcos DeBrito recria dois mitos do folclore brasileiro de uma forma extraordinária. A cada página vamos conhecendo detalhes desses mitos que aqui aparecem de uma maneira totalmente diferente da que já conhecemos. Depois que começamos a ler fica muito difícil parar, nossa atenção fica totalmente presa no texto. Narrado  em terceira pessoa,  o livro alterna o ponto de vista dos personagens envolvidos nos permitindo conhecer a história a partir de diferentes ângulos.

O autor também é cineasta e podemos perceber claramente essa característica durante a leitura. O modo como a história é narrada nos leva a recriá-la visualmente durante a leitura. Aliás, recentemente em uma entrevista no perfil do Facebook da Faro Editorial, editora responsável pela publicação do livro, ele afirmou que todas as suas histórias começam como um roteiro e depois é que ele trabalha para transformar o texto no formato de livro.

Aliado a todos esses fatores ainda temos a impecável edição criada pela equipe da Faro Editorial, que está investindo muito no trabalho de autores nacionais. O corte das folhas é vermelho e fica impossível não associar a todo o sangue derramado no decorrer da história. A imagem da capa e todas as outras que estão presentes na edição remetem fielmente ao clima do livro. A cor e a gramatura das folhas enriqueceram ainda mais a experiência desta leitura, imperdível para qualquer leitor em busca de uma narrativa inesquecível.

 


Livro: O Escravo de Capela
Autor: Marcos DeBrito
Lançamento: 2017
Editora: Faro Editorial
Páginas: 288
Sinopse: Durante a cruel época escravocrata do Brasil Colônia, histórias aterrorizantes baseadas em crenças africanas e portuguesas deram origem a algumas das lendas mais populares de nosso folclore. Com o passar dos séculos, o horror de mitos assustadores foi sendo substituído por versões mais brandas.

Em “O Escravo de Capela”, uma de nossas fábulas foi recriada desde a origem. Partindo de registros históricos para reconstruir sua mitologia de forma adulta, o autor criou uma narrativa tenebrosa de vingança com elementos mais reais e perversos.  Aqui, o capuz avermelhado, sua marca mais conhecida, é deixado de lado para que o rosto de um escravo-cadáver seja encoberto pelo sudário ensanguentado de sua morte.

Uma obra para reencontrar o medo perdido da lenda original e ver ressurgir um mito nacional de forma mais assustadora, em uma trama mórbida repleta de surpresas e reviravoltas.

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21 Comentários

  • Lili Aragão

    Oi Thaís, já vi algumas resenhas desse livro e tenho achado a história bem interessante, apesar de não ser muito meu gênero, o lance sobrenatural que o autor inclui na história parece ser o diferencial, mas acho que o livro deve render cenas bem tristes e revoltantes, retratando os maus tratos dos escravos, um verdadeiro terror. Fico feliz que o autor brasileiro tenha conseguido entregar uma obra de qualidade, retratando bem fatos históricos. Apesar de não ser um livro que eu ache que iria prender minha atenção, curti muito a resenha *__*

    17 de agosto de 2017 às 13:58 Responder
    • Thaís Bueno

      Oi Lili!

      Fico muito feliz que você tenha gostado da resenha. O livro é muito interessante sem dúvidas, depois que comecei a ler não conseguia mais parar! Foi extremamente doloroso acompanhar o sofrimento dos escravos, mas acho muito importante debater este tema. Não podemos esquecer o nosso passado. Cada vez mais autores nacionais estão conseguindo mostrar a nossa literatura é de qualidade. Continue acompanhando o blog.

      Beijos.

      18 de agosto de 2017 às 08:18 Responder
  • Ludyanne Carvallho

    Gosto muito de livros com fatos históricos; mas não teria condições de fazer esta leitura, meu coração se apertou somente com a resenha. E já estou na torcida para que Sabola consiga se libertar. De fato este tema é extremamente importante para nossa sociedade.
    A capa é muito bonita, e amei as bordas vermelhas.

    P.S. Estou aqui admirando o autor, não apenas pelo belo trabalho … Muito bonito! haha
    beijos

    17 de agosto de 2017 às 14:52 Responder
    • Thaís Bueno

      Oi Ludyanne!

      Adorei saber que você também gosta de livros com fatos históricos. Realmente o tema abordado no livro é muito importante e que nós brasileiros não podemos deixar de debater. A edição ficou um capricho, a Faro Editorial está de parabéns pelo excelente trabalho. Continue acompanhado os posts do blog.

      Beijos,

      18 de agosto de 2017 às 08:12 Responder
      • Ludyanne Carvalho

        Vou continuar sim. Depois que li as resenhas de A química que há entre nós e O amor nos tempos do ouro, acabei incluindo na minha lista. E agora adquiri ambos.
        As resenhas do blog são muito bem escritas.

        18 de agosto de 2017 às 11:04 Responder
        • Thaís Bueno

          Muito obrigada Ludyanne! Ficamos muito felizes com esse retorno. Beijos.

          18 de agosto de 2017 às 13:30 Responder
  • cristiane dornelas

    Achei muito legal esse foco nos tempos de escravidão do livro e como mostra muito das coisas vividas naquelas tempos. Faz lembrar de coisas que a gente aprendeu na escola, mas de um jeito mais interessante, vendo e sentindo mais e podendo se conetar com as dores dos personagens e etc. É pra fazer lembrar de um tempo sombrio da nossa história e sentir o impacto de tudo aquilo.
    E achei legal esse jeito novo de contar os mitos do folclore também. Deve ter ficado bem interessante.
    Tem bastante coisa nesse livro que chama atenção.

    18 de agosto de 2017 às 14:04 Responder
    • Thaís Bueno

      Oi Cristiane!

      Realmente o livro aborda de uma maneira muito interessante o tema e nos ajuda a fazer uma reflexão sobre nossa própria história. Fico muito feliz que a resenha tenha despertado o seu interesse pelo livro.

      Beijos,

      19 de agosto de 2017 às 10:08 Responder
  • Dieison Engroff

    Que resenha sensacional. Como não ficar cada vez mais fã dese blog?

    Um abração, Dieison, do RS.

    19 de agosto de 2017 às 18:03 Responder
    • Thaís Bueno

      Oi Dieison!

      Que bom que gostou da resenha.

      Um abraço,

      20 de agosto de 2017 às 17:59 Responder
  • Alison de Jesus

    Olá, a ideia do autor de juntar elementos culturais do nosso país com a época colonial parecer ter dado super certo! É uma maneira bastante original de fazer mais denúncias sobre esse bárbaro período. Beijos.

    20 de agosto de 2017 às 17:48 Responder
    • Thaís Bueno

      Oi Alison!

      A Literatura pode e deve sempre cumprir esse papel de provocar debate por assuntos que não devem ser esquecidos. Marcos DeBrito escreveu um livro cumpre esse papel de forma excepcional. Com certeza é uma leitura muito válida.

      Beijos,

      20 de agosto de 2017 às 18:05 Responder
  • Hérica Lima

    Adoro livros com fatos históricos, nunca li nada do autor e eu amo conhecer mais sobre a literatura brasileira, sempre leio muito livros nacionais!
    Adorei saber que esse livro fala sobre mitos! Ser sobrenatural me chamou bastante atenção, não é muito meu gênero, porém fiquei interessada!

    21 de agosto de 2017 às 19:54 Responder
    • Thaís Bueno

      Oi Hérica!

      Também procura sempre ler livros de autores nacionais. Tente dar uma chance para esse livro, você pode descobrir um novo gênero literário que a agrade.

      Beijos,

      22 de agosto de 2017 às 16:25 Responder
  • Pamela Mendes

    Eu nunca tinha ouvido falar do livro, e achei ele bem interessante. Nunca li nada parecido, e fiquei curiosa para saber mais dele. Só é muito triste saber que tudo isso já aconteceu aqui. Fiquei com bastante vontade de ler esse livro (e até saber o que tem de sobrenatural nele). Adorei a dica e a resenha!
    Bjss ^^

    23 de agosto de 2017 às 11:33 Responder
    • Thaís Bueno

      Oi Pamela!

      Fico muito feliz que você tenha gostado da resenha. Realmente é muito triste saber que parte do que é retratado nesta história aconteceu de verdade. Depois que você ler não deixe de me contar o que achou.

      Beijos,

      23 de agosto de 2017 às 16:04 Responder
  • Bruna Bento

    nunca tinha ouvido falar do livro. amo ficçao historica porem nao curto sobrenatural, aí tô mto em duvida se leio ou nao haha
    queria que voce tivesse falado um pouquinho mais sobre o lado sobrenatural do livro, queria saber se pende mais para esse lado ou para a ficçao historica. pela sua resenha parece mais ficçao historica e amei tudo o que descreveu, mas lendo a sinopse ao final parece um livro totalmente diferente rs #help

    25 de agosto de 2017 às 22:37 Responder
    • Thaís Bueno

      Oi Bruna!

      O pano de fundo do livro é o mito que o autor recriou, então a parte sobrenatural aparece bastante. Mas acredito que mesmo quem não curte tanto livros sobrenaturais vai gostar muito desta história. Espero ter ajudado.

      Beijos,

      28 de agosto de 2017 às 10:36 Responder
  • Marta Izabel

    Oi, Thaís!!
    Que bom que o autor construiu uma estória tão espetacular como essa, achei incrível a premissa da estória ser ficção histórica e que o Marcos DeBrito como cineasta e escritor sobe reproduzir um livro tão espetacular que nos como leitores vamos apreciar muito, principalmente por ser um autor nacional.
    Bjoss

    31 de agosto de 2017 às 00:30 Responder
    • Thaís Bueno

      Oi Marta!

      Também fico muito feliz ao ver um trabalho tão bem executado por autor nacional. Precisamos sempre falar e conhecer a nossa própria história.

      Beijos,

      2 de setembro de 2017 às 12:09 Responder
  • Isabela Carvalho

    Olá Thaís 😉
    Gosto de livros que falam sobre a história do nosso país, apesar de não servimos gênero que tenho costume de ler, infelizmente.
    O autor parece ter mergulhado fundo na história e pesquisado bastante antes de escrever o livro, e só por isso já aplaudo ele.
    Mas o que mais me deixou intrigada foi essa parte sobrenatural que você falou, fiquei muito curiosa para saber mais. Obrigada pela indicação, com certeza foi para a lista de leitura 😉
    Bjos

    31 de agosto de 2017 às 08:57 Responder
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