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Resenha – Não conte para a mamãe

Publicado em 21 de abril de 2017
- Bertrand, Drama, Editoras, Não Ficção

LIVRO ESPECIALMENTE INDICADO PARA leitores que busquem uma narrativa chocante, angustiante e capaz de mexer com os nossos instintos mais intrínsecos. Para ler quando sentimos que nosso estômago está forte o suficiente para aguentar o choque de dor e realidade que a narrativa propõe.

– Não conte para a mamãe – disse ele, dando-me uma breve sacudida. – Isso é um segredo nosso, Antoinette, você me ouviu? – Está bem, papai – respondi – não vou contar. Mas contei. Eu sentia segurança no amor de minha mãe. Eu a amava, e ela, eu sabia, me amava. Ela o mandaria parar. Mas não mandou.

É desta forma que começo a falar sobre a dica de hoje. Este não é um livro fácil, está não é uma história bonita. Não existe aqui conto de fadas e nem ficção moldada de maneira sutil para agradar aos mais sensíveis. A história deste livro é feia, é suja, é cruel, é nojenta. É aquele tipo de história que mexe com o leitor de todas as maneiras e quando finda, o sentimento que fica no peito não é bom.

Não conte para a mamãe é uma espécie de desabafo disfarçado de autobiografia. Conhecemos a história de uma mulher adulta que visita pela última vez a mãe, doente terminal, na clinica em que vive esperando pela morte. Entre lembranças de um passado sombrio e relatos do momento presente, a autora conta a história da sua vida, desde que
se lembra, até o momento em que vai à frente do caixão da mãe, décadas depois. Toni Maguire relata de maneira direta e muitas vezes cruel, toda a sucessão de violência e abuso que sofreu, e de que maneira isso impactou em seu desenvolvimento, em sua vida.

Da infância feliz na Inglaterra,  até o pesadelo vivido na Irlanda, o leitor embarca numa narrativa que mostra o quão cruel as pessoas podem ser. Quando criança Antoinette acreditava na ideia de família feliz. O pai, um irlandês considerado herói de guerra, aparecia poucas vezes em casa, sempre carregado de presentes e atenção para a esposa devotada e filha querida. A mãe inglesa, por sua vez, sonhava em desempenhar o papel de esposa exemplar e dona de casa satisfeita. Era acostumada a manter o chá quentinho disponível e a filha sempre impecavelmente arrumada.  Com a situação difícil após a guerra, a família se mudou para a Irlanda em busca de condições melhores. A casinha de sapê onde passaram a morar era a representação de um recomeço. Até que se transformou no pior pesadelo de Toni.

Os abusos começaram muito cedo. A autora relata que a crueldade psicológica e física foi dando lugar à violência sexual logo que o pai, com a desculpa de que levaria a filha para passear de carro, passou a molestar a criança longe dos olhos da mãe. Essa, por sua vez, com o passar do tempo, foi se mostrando muito consciente de tudo o que acontecia. Um pai tirano, alcoólatra e pedófilo. Uma mãe submissa, permissiva, que transitava entre um comportamento de uma codependente do marido cruel (cruel só com a filha, diga-se de passagem) e cúmplice das atrocidades cometidas por ele, com seu consentimento silencioso.   Esse é o tom do livro. E em momento algum a história fica melhor.

Não vá contar para sua mãe, minha menina. Isso é segredo nosso. Se contar, ela não vai acreditar em você. Ela não vai mais amar você. Eu já sabia que isso era verdade.

Temos de tudo aqui: pobreza, surras, estupro, abandono emocional, tortura psicológica. Vemos uma menina amorosa, cheia de sonhos e expectativas se transformar em uma jovem que já não vê sentido na vida. Vemos a família ocupar o papel de algoz, vemos os parentes virarem as costas para a vítima e abrir os braços para o agressor. Neste livro mergulhamos em toda a hipocrisia e sordidez de uma sociedade que aponta o dedo e julga quando deveria cuidar e acolher. Isso foi na década de 50, mas é tão atual como se tivesse acontecido hoje. E, pelo que a gente lê nos jornais e assiste na TV, deve ter acontecido mesmo.

 

Não conte para a mamãe é um livro difícil de ler, porque é inevitável o fato do leitor se compadecer e envolver com o que está sendo mostrado. Já seria assim caso fosse ficção, mas sabendo que tudo aquilo que salta das páginas, de maneira inacreditável, foi de fato vivido por alguém, e que esse alguém foi capaz de colocar no papel e mostrar para mundo, torna esse livro dolorosamente essencial. A gente precisa se permitir falar sobre o que é tabu. A gente precisa reconhecer os sinais emitidos pela vítima. A gente precisa aprender a proteger, ao invés de manter a distância segura. Desta vez foi num livro, mas poderia ter sido conosco. Com nossos filhos.

Olhei nos espelho e vi um rosto pálido, com olhos cheios de lágrimas e manchas vermelhas no queixo e pescoço, encarando-me em desespero. Lavei-me diversas vezes, mas o cheiro dele permaneceu em mim até eu acreditar que se transformara numa marca permanente do meu corpo.

Este livro pode não agradar aos leitores mais sensíveis. Ele é capaz de despertar sentimentos contraditórios em quem já viveu, ou quem conhece alguém que passou por algo semelhante. É provável também que confunda o leitor com relação às decisões e alguns comportamentos de Toni, pois pode ser difícil para quem mantém um olhar distante compreender o comportamento de quem passou por tudo isso. Se isso acontecer, recomendo um exercício simples: tentar enxergar tudo através dos olhos da vítima, e não de um espectador afastado. Neste caso, o que você faria?

Esta não é uma história com um final feliz, mas um relato sobre a possibilidade de continuar existindo, mesmo quando o vazio insiste em tomar conta do ser e quando a alegria é apenas uma sugestão distante. Aqui fica claro que o arrependimento não ajuda. Aqui a gente percebe que nem sempre o perdão tem o poder de curar as feridas. Cabe ao sujeito descobrir maneiras de lidar com tudo isso. Essa ideia vale também para quem optar por embarcar na jornada angustiante de Toni Maguire. Eu recomendo este livro, mas com ressalvas. Ele não é para qualquer um.

Para quem quiser saber um pouco mais sobre a autora e seu processo de escrita, CLICANDO AQUI é possível ler uma entrevista, concedida por ela logo após o lançamento de Não conte para a mamãe.


Livro: Não conte para a mamãe

Autora: Toni Maguire

Lançamento: 2012

Editora: Bertrand

Páginas: 308

Sinopse: A frase que dá título ao livro de Toni Maguire, Não conte para a mamãe, poderia ser uma pacto ingênuo entre dois irmãos ou uma brincadeira entre crianças. Infelizmente, não é o caso. Na verdade, é a ameaça sofrida pela autora durante os quase dez anos em que foi violentada pelo próprio pai. Quando aconteceu pela primeira vez, a pequena e inocente Antoniette tinha apenas seis anos. Apesar da tenra idade, tudo ficou gravado em sua memória, o tempo nada dissipou: os detalhes, os sentimentos, a dor. Foi a primeira de muitas, incontáveis vezes. Não conte para a mamãe, de Toni Maguire, desvela a comovente história de um infância idílica que mascarava uma terrível verdade.

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12 Comentários

  • Ludyanne Carvalho

    Que dor; só de imaginar algo assim acontecendo,meu coração se aperta. Não tenho estrutura emocional para uma história assim. E o que mais dói é a certeza de que esse ato perverso ainda acontece em nosso mundo. Há alguns dias perdemos uma jovem que passou pela mesma situação; um pai abusivo, uma mãe que silenciou… É doloroso, mas não pode permanecer sendo um tabu. Precisamos falar, reconhecer os sinais, ajudar…

    21 de abril de 2017 às 17:39 Responder
  • Lili Aragão

    Oi Krisna, esse é um livro que parece ser bem intenso e forte e com certeza não é pra qualquer um, porque é difícil ver essa face cruel do ser humano, eu acho super difícil ler um livro assim… A capa com essa aura inocente é de cortar o coração quando se sabe o conteúdo do livro e apesar de ter achado sua resenha muito boa, não acho que conseguiria ler esse livro por agora…

    21 de abril de 2017 às 17:51 Responder
  • Cristiane Dornelas

    Mais ou menos na época em que lançou eu fiquei bastante interessada por esse livro, mas acho que se tivesse lido não iria me impactar tanto quanto agora. Estava começando a ler mais, sabe? Penso que não iria entender tudo o que ele tem para passar por não estar madura o suficiente pra ele.
    Ultimamente vi algumas resenhas dele que me despertaram interesse de novo e por ser um livro difícil de engolir mesmo. A história não parece ser nada bonita, parece ser dessas que faz a gente repensar sobre a vida e ficar triste imaginando as coias ruins que tem por aí, porque existe, a gente sabe que existe e quando se depara com uma narrativa que demonstre tantos sentimentos como essa parece mostrar é de dar um aperto no coração. Estou com ele na minha lista de leitura e espero conseguir ler ainda esse ano. Não parece mesmo que é um livro pra qualquer um, mas gosto de narrativas fortes assim.

    21 de abril de 2017 às 21:41 Responder
  • Alessandra Fernandes

    Eu percebi que para ler esse livro é preciso ser muito, mas muito forte, é preciso ter estômago, segurar a raiva e as lágrimas, pois cada momento é pior que o outro, quando você acha que não tem mais como piorar, piora. Ainda mais destruído por saber que é real, que aconteceu, que foi um crime horrível e verídico, que a vida de Toni realmente nunca mais foi a mesma.
    Histórias assim não podem faltar em minha lista de leituras, sendo assim, o procurarei para ler também.
    Bjos, Krisna!

    21 de abril de 2017 às 22:26 Responder
  • Leonora Oliveira

    Sim, eu sou daquelas leitoras que muitas vezes compram o livro pela capa, e se eu tivesse visto este, compraria. O olhar da garotinha na capa fala muito mais que qualquer sinopse diria. A ausência dos traços de sua boca indica um silêncio imposto, um fardo pesado demais para uma criança inocente. Quero ter este livro em breve, pois sei que será uma leitura regada a lágrimas de desespero, raiva, compaixão e, acima de tudo tristeza por saber que muitas Tonis padecem por aí, silenciosamente em seus casulos construídos por monstros que fazem uma criança acreditar que a culpa por ser abusada sexualmente, psicologicamente e fisicamente é dela mesma e de mais ninguém.
    Beijos!!

    21 de abril de 2017 às 23:13 Responder
  • Marlene Conceição

    Oi Krisna.
    Pelo tema do livro Eu já imaginava o que viria pela frente mas acompanhar de perto o sofrimento dessa criança simplesmente partiu meu coração e o fato de que tudo isso partiu das pessoas que deveriam a amarnincondicionalmente torna tudo isso dez mil vezes pior e o que parti meu coração é saber que várias crianças sofrem isso diariamente e estou de mãos atadas para essa situação

    22 de abril de 2017 às 02:08 Responder
  • Caroline Garcia

    Meu coração não aguenta em ler livros assim sabia? Até evito, tento passar longe.
    Uma situação que se é vivida hoje em dia ainda. Muito nojo por essas criaturas abusivas.
    Parece ser uma história bem construída, mas muito chocante, forte e de se emocionar pra caramba né!
    Quem sabe quando eu tiver mais estômago não acabe conhecendo a obra?
    Obrigada pela dica, beijos, Caroline Garcia.

    22 de abril de 2017 às 02:43 Responder
  • Priscila Tavares

    Oi Krisna, tudo bem?
    Quando bati o olho no nome desse livro já desconfiei sobre o que ele tratava. Sem sombra de dúvidas, esse não é um livro para qualquer um ler, já que demanda um certo controle por parte do leitor. Eu fico abismada com a "capacidade" que algumas pessoas tem de ser mostrarem tão pouco-humanas. Sério, é um absurdo essas ações. Eu imagino como é difícil estar numa situação dessas onde o pai tem poder demais e a mãe voz de menos. Apesar da leitura ser extremamente forte, quero ler esse livro.
    Beijos
    Quanto Mais Livros Melhor

    23 de abril de 2017 às 20:56 Responder
  • Aichha Carolina Pereira

    Oi Krisna
    Parece ser um livro bem perturbador e que realmente mexe com nosso emocional. Nem todos gostam de ler livros que deixam mal. Mas vejo uma grande necessidade de nos aprofundarmos nestes temas polêmicos e muito reais.
    Beijos

    24 de abril de 2017 às 13:44 Responder
  • Leituras da Ketellyn

    Com certeza não é uma leitura facil, é cheia de dor e crueldade, e um assunto muito polemico e que infelizmente é a realidade de algumas pessoas.

    29 de abril de 2017 às 22:45 Responder
  • Kris Soares

    Acho que sou muito covarde quando se trata de livros tão fortes como esse, não tenho coragem de ler, sei que vou me sentir muito mal.

    1 de maio de 2017 às 00:56 Responder
  • suzana cariri

    Oi!
    Realmente esse é um livro bem denso, pesado e que causa revolta no leitor, mas que infelizmente mostra uma realidade, mesmo o livro sendo da década de 50, com certeza não é uma leitura para todas !!

    1 de maio de 2017 às 18:24 Responder
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