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Resenha – Não conte para a mamãe

Publicado em 21 de abril de 2017
- Sem classificação

Livro: Não
conte para a mamãe | Autor: Toni
Maguire | Lançamento: 2012 | Editora: Bertrand | Páginas: 308 | Classificação do Skoob: 4,3 | Onde comprar: Amazon | Saraiva
*Livro
do acervo pessoal

“-
Não conte para a mamãe – disse ele, dando-me uma breve sacudida. – Isso é um
segredo nosso, Antoinette, você me ouviu?

Está bem, papai – respondi – não vou contar.
Mas
contei. Eu sentia segurança no amor de minha mãe. Eu a amava, e ela, eu sabia,
me amava. Ela o mandaria parar. Mas não mandou”.

É desta forma que começo a falar sobre a dica de hoje. Este não é um livro fácil,
está não é uma história bonita. Não existe aqui conto de fadas e nem ficção
moldada de maneira sutil para agradar aos mais sensíveis. A história deste
livro é feia, é suja, é cruel, é nojenta. É aquele tipo de história que mexe
com o leitor de todas as maneiras e quando finda, o sentimento que fica no
peito não é bom.

Não conte para a mamãe
é uma espécie de desabafo disfarçado de autobiografia. Conhecemos a história de
uma mulher adulta que visita pela última vez a mãe, doente terminal, na clinica
em que vive esperando pela morte. Entre lembranças de um passado sombrio e
relatos do momento presente, a autora conta a história da sua vida, desde que
se lembra, até o momento em que vai à frente do caixão da mãe, décadas depois.
Toni Maguire relata de maneira direta e muitas vezes cruel, toda a sucessão de
violência e abuso que sofreu, e de que maneira isso impactou em seu desenvolvimento,
em sua vida.
Da
infância feliz na Inglaterra,  até o
pesadelo vivido na Irlanda, o leitor embarca numa narrativa que mostra o quão
cruel as pessoas podem ser. Quando criança Antoinette acreditava na ideia de
família feliz. O pai, um irlandês considerado herói de guerra, aparecia poucas
vezes em casa, sempre carregado de presentes e atenção para a esposa devotada e
filha querida. A mãe inglesa, por sua vez, sonhava em desempenhar o papel de esposa exemplar
e dona de casa satisfeita. Era acostumada a manter o chá quentinho disponível e
a filha sempre impecavelmente arrumada.  Com
a situação difícil após a guerra, a família se mudou para a Irlanda em busca de
condições melhores. A casinha de sapê onde passaram a morar era a representação de um
recomeço. Até que se transformou no pior pesadelo de Toni.

Os
abusos começaram muito cedo. A autora relata que a crueldade psicológica e
física foi dando lugar à violência sexual logo que o pai, com a desculpa de que
levaria a filha para passear de carro, passou a molestar a criança longe dos
olhos da mãe. Essa, por sua vez, com o passar do tempo, foi se mostrando muito
consciente de tudo o que acontecia. Um pai tirano, alcoólatra e pedófilo. Uma
mãe submissa, permissiva, que transitava entre um comportamento de uma codependente do
marido cruel (cruel só com a filha, diga-se de passagem) e cúmplice das
atrocidades cometidas por ele, com seu consentimento silencioso.   Esse é
o tom do livro. E em momento algum a história fica melhor.

“Não vá contar para sua mãe, minha menina. Isso é
segredo nosso. Se contar, ela não vai acreditar em você. Ela não vai mais amar
você.
Eu já sabia que isso era verdade”.
Temos
de tudo aqui: pobreza, surras, estupro, abandono emocional, tortura psicológica. Vemos uma menina amorosa,
cheia de sonhos e expectativas se transformar em uma jovem que já não vê
sentido na vida. Vemos a família ocupar o papel de algoz, vemos os parentes
virarem as costas para a vítima e abrir os braços para o agressor. Neste livro
mergulhamos em toda a hipocrisia e sordidez de uma sociedade que aponta o dedo
e julga quando deveria cuidar e acolher. Isso foi na década de 50, mas é tão
atual como se tivesse acontecido hoje. E, pelo que a gente lê nos jornais e
assiste na TV, deve ter acontecido mesmo.

Não conte para a mamãe
é um livro difícil de ler, porque é inevitável o fato do leitor se compadecer e
envolver com o que está sendo mostrado. Já seria assim caso fosse ficção, mas sabendo
que tudo aquilo que salta das páginas, de maneira inacreditável, foi de fato
vivido por alguém, e que esse alguém foi capaz de colocar no papel e mostrar
para mundo, torna esse livro dolorosamente essencial. A gente precisa se
permitir falar sobre o que é tabu. A gente precisa reconhecer os sinais
emitidos pela vítima. A gente precisa aprender a proteger, ao invés de manter a
distância segura. Desta vez foi num livro, mas poderia ter sido conosco. Com
nossos filhos.

 “Olhei
nos espelho e vi um rosto pálido, com olhos cheios de lágrimas e manchas
vermelhas no queixo e pescoço, encarando-me em desespero. Lavei-me diversas
vezes, mas o cheiro dele permaneceu em mim até eu acreditar que se transformara
numa marca permanente do meu corpo”.

 Este livro pode não agradar aos leitores mais
sensíveis. Ele é capaz de despertar sentimentos contraditórios em quem já viveu,
ou quem conhece alguém que passou por algo semelhante. É provável também que
confunda o leitor com relação às decisões e alguns comportamentos de Toni, pois pode ser difícil para quem
mantém um olhar distante compreender o comportamento de quem passou por
tudo isso. Se isso acontecer, recomendo um exercício simples: tentar enxergar
tudo através dos olhos da vítima, e não de um espectador afastado. Neste caso, o que você faria?
Esta
não é uma história com um final feliz, mas um relato sobre a possibilidade de
continuar existindo, mesmo quando o vazio insiste em tomar conta do ser e
quando a alegria é apenas uma sugestão distante. Aqui fica claro que o arrependimento
não ajuda. Aqui a gente percebe que nem sempre o perdão tem o poder de curar as
feridas. Cabe ao sujeito descobrir maneiras de lidar com tudo isso. Essa
ideia vale também para quem optar por embarcar na jornada angustiante de
Toni Maguire. Eu recomendo este livro, mas com ressalvas. Ele não é para
qualquer um.

Para quem quiser saber um pouco mais sobre a autora e seu processo de escrita, CLICANDO AQUI é possível ler uma entrevista, concedida por ela logo após o lançamento de Não conte para a mamãe.

 A frase que dá título ao livro de Toni Maguire, Não conte para a mamãe,
poderia ser uma pacto ingênuo entre dois irmãos ou uma brincadeira entre
crianças. Infelizmente, não é o caso. Na verdade, é a ameaça sofrida
pela autora durante os quase dez anos em que foi violentada pelo próprio
pai.
Quando aconteceu pela primeira vez, a pequena e inocente
Antoniette tinha apenas seis anos. Apesar da tenra idade, tudo ficou
gravado em sua memória, o tempo nada dissipou: os detalhes, os
sentimentos, a dor. Foi a primeira de muitas, incontáveis vezes. Não
conte para a mamãe, de Toni Maguire, desvela a comovente história de um
infância idílica que mascarava uma terrível verdade.

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12 Comentários

  • Ludyanne Carvalho

    Que dor; só de imaginar algo assim acontecendo,meu coração se aperta. Não tenho estrutura emocional para uma história assim. E o que mais dói é a certeza de que esse ato perverso ainda acontece em nosso mundo. Há alguns dias perdemos uma jovem que passou pela mesma situação; um pai abusivo, uma mãe que silenciou… É doloroso, mas não pode permanecer sendo um tabu. Precisamos falar, reconhecer os sinais, ajudar…

    21 de abril de 2017 às 17:39 Responder
  • Lili Aragão

    Oi Krisna, esse é um livro que parece ser bem intenso e forte e com certeza não é pra qualquer um, porque é difícil ver essa face cruel do ser humano, eu acho super difícil ler um livro assim… A capa com essa aura inocente é de cortar o coração quando se sabe o conteúdo do livro e apesar de ter achado sua resenha muito boa, não acho que conseguiria ler esse livro por agora…

    21 de abril de 2017 às 17:51 Responder
  • Cristiane Dornelas

    Mais ou menos na época em que lançou eu fiquei bastante interessada por esse livro, mas acho que se tivesse lido não iria me impactar tanto quanto agora. Estava começando a ler mais, sabe? Penso que não iria entender tudo o que ele tem para passar por não estar madura o suficiente pra ele.
    Ultimamente vi algumas resenhas dele que me despertaram interesse de novo e por ser um livro difícil de engolir mesmo. A história não parece ser nada bonita, parece ser dessas que faz a gente repensar sobre a vida e ficar triste imaginando as coias ruins que tem por aí, porque existe, a gente sabe que existe e quando se depara com uma narrativa que demonstre tantos sentimentos como essa parece mostrar é de dar um aperto no coração. Estou com ele na minha lista de leitura e espero conseguir ler ainda esse ano. Não parece mesmo que é um livro pra qualquer um, mas gosto de narrativas fortes assim.

    21 de abril de 2017 às 21:41 Responder
  • Alessandra Fernandes

    Eu percebi que para ler esse livro é preciso ser muito, mas muito forte, é preciso ter estômago, segurar a raiva e as lágrimas, pois cada momento é pior que o outro, quando você acha que não tem mais como piorar, piora. Ainda mais destruído por saber que é real, que aconteceu, que foi um crime horrível e verídico, que a vida de Toni realmente nunca mais foi a mesma.
    Histórias assim não podem faltar em minha lista de leituras, sendo assim, o procurarei para ler também.
    Bjos, Krisna!

    21 de abril de 2017 às 22:26 Responder
  • Leonora Oliveira

    Sim, eu sou daquelas leitoras que muitas vezes compram o livro pela capa, e se eu tivesse visto este, compraria. O olhar da garotinha na capa fala muito mais que qualquer sinopse diria. A ausência dos traços de sua boca indica um silêncio imposto, um fardo pesado demais para uma criança inocente. Quero ter este livro em breve, pois sei que será uma leitura regada a lágrimas de desespero, raiva, compaixão e, acima de tudo tristeza por saber que muitas Tonis padecem por aí, silenciosamente em seus casulos construídos por monstros que fazem uma criança acreditar que a culpa por ser abusada sexualmente, psicologicamente e fisicamente é dela mesma e de mais ninguém.
    Beijos!!

    21 de abril de 2017 às 23:13 Responder
  • Marlene Conceição

    Oi Krisna.
    Pelo tema do livro Eu já imaginava o que viria pela frente mas acompanhar de perto o sofrimento dessa criança simplesmente partiu meu coração e o fato de que tudo isso partiu das pessoas que deveriam a amarnincondicionalmente torna tudo isso dez mil vezes pior e o que parti meu coração é saber que várias crianças sofrem isso diariamente e estou de mãos atadas para essa situação

    22 de abril de 2017 às 02:08 Responder
  • Caroline Garcia

    Meu coração não aguenta em ler livros assim sabia? Até evito, tento passar longe.
    Uma situação que se é vivida hoje em dia ainda. Muito nojo por essas criaturas abusivas.
    Parece ser uma história bem construída, mas muito chocante, forte e de se emocionar pra caramba né!
    Quem sabe quando eu tiver mais estômago não acabe conhecendo a obra?
    Obrigada pela dica, beijos, Caroline Garcia.

    22 de abril de 2017 às 02:43 Responder
  • Priscila Tavares

    Oi Krisna, tudo bem?
    Quando bati o olho no nome desse livro já desconfiei sobre o que ele tratava. Sem sombra de dúvidas, esse não é um livro para qualquer um ler, já que demanda um certo controle por parte do leitor. Eu fico abismada com a "capacidade" que algumas pessoas tem de ser mostrarem tão pouco-humanas. Sério, é um absurdo essas ações. Eu imagino como é difícil estar numa situação dessas onde o pai tem poder demais e a mãe voz de menos. Apesar da leitura ser extremamente forte, quero ler esse livro.
    Beijos
    Quanto Mais Livros Melhor

    23 de abril de 2017 às 20:56 Responder
  • Aichha Carolina Pereira

    Oi Krisna
    Parece ser um livro bem perturbador e que realmente mexe com nosso emocional. Nem todos gostam de ler livros que deixam mal. Mas vejo uma grande necessidade de nos aprofundarmos nestes temas polêmicos e muito reais.
    Beijos

    24 de abril de 2017 às 13:44 Responder
  • Leituras da Ketellyn

    Com certeza não é uma leitura facil, é cheia de dor e crueldade, e um assunto muito polemico e que infelizmente é a realidade de algumas pessoas.

    29 de abril de 2017 às 22:45 Responder
  • Kris Soares

    Acho que sou muito covarde quando se trata de livros tão fortes como esse, não tenho coragem de ler, sei que vou me sentir muito mal.

    1 de maio de 2017 às 00:56 Responder
  • suzana cariri

    Oi!
    Realmente esse é um livro bem denso, pesado e que causa revolta no leitor, mas que infelizmente mostra uma realidade, mesmo o livro sendo da década de 50, com certeza não é uma leitura para todas !!

    1 de maio de 2017 às 18:24 Responder
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