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Resenha – Mosquitolândia

Publicado em 6 de dezembro de 2017
- Editoras, Intrínseca, Resenhas, Young Adult

LIVRO ESPECIALMENTE INDICADO para os amantes de leituras doces, leves e reflexivas, cheio de emoções e sementinhas felizes que viram árvores abastadas de frutos nos corações de quem lê. Para todas as idades e para todos os tipos de leitores.

Você já se sentiu carregado por suas emoções, como se não fosse dono delas e sim o inverso?

Neste livro, me encontrei nesta situação peculiar. Imaginei o autor David Arnold segurando tudo o que eu sentia e operando de uma centralzinha em que ele poderia controlar minhas emoções. Como um boneco vodu, só que sem mirar nas pernas, nos braços, e sim nas partes mais viscerais possíveis. Os olhos foram constantemente atingidos, porque chorei algumas deliciosas e inevitáveis vezes. Vou tentar lhes dizer o motivo.

Neste livro conhecemos Mary Iris Malone, ou simplesmente MIM. Seus pais se separaram e ela ficou com o pai e eles mudaram de cidade, mas depois de um tempo decidiu que precisava ver a mãe novamente. Por isso ela se arma com tudo que é indispensável e vai à luta. Dinheiro? ela tem um pouco. Seu diário inseparável? Já está na mochila. Coragem e sanidade para iniciar essa viagem? Ela está caminhando para isso. Porém, MIM vive uma confusão mental que só vai fazendo sentido aos poucos, conforme tudo o que ela sente é apresentado ao leitor através das anotações que ela faz no seu inseparável diário. Mas não pensem que essas são apenas palavras rabiscadas num caderno qualquer, pois elas são uma importante lista de motivos para a garota ser do jeito que é, para fazer o que faz e decidir o que decidiu. São os porquês por trás dos quês, como a jovem costuma falar.

Escrevo para você com a maior das urgências. Escrevo sobre assuntos pesados e depressivos. Escrevo para ensinar e aprender, para expurgar e preencher. Escrevo para falar e escrevo para ouvir. Escrevo para contar a maldita verdade, Isa.

Acompanhamos aqui uma personagem que guarda um misto de sentimentos, conflitos e vontades, e é assim que nos transformamos em leitores que também sentem o peso de tudo isso em igual medida. E durante a viagem? Ah, acontece de tudo. Ela conhece pessoas boas que ganham certo protagonismo em sua vida, mas também se encontra com pessoas ruins que de uma maneira ou outra deixam sua marca. Nos deparamos com maquiagem de guerra, câmeras fotográficas, cartas antigas, glutamato monossódico, presunto enlatado, medicamentos psicotrópicos, música e coisas brilhantes.  Se olharmos cada coisa individualmente é provável que sejam apenas itens aleatórios, o que passa uma sensação de confusão e falta de sentido. Acredito que, talvez por isso, exista aqui a possibilidade de leitores que tendem a ter um pensamento mais retilíneo ficarem incomodados. Mas, acima de tudo, acredito que essa miscelânea de sentimentos pode ser vista como um reflexo da cabeça e também do coração da personagem. Ela é a pessoa mais confusa daqui.

Penso que o intuito de Mosquitolândia talvez seja esse, mostrar ao leitor que um todo é formado por partes distintas,  que sozinhas podem parecer confusas, sem sentido ou insignificantes, mas que juntas se tornam algo inteiro. Essas partes se transformam em lar, em sensação de pertencimento. Esse todo se converte na possibilidade de se reconhecer enquanto uma pessoa “normal”, mesmo que o significado disso seja relativo e supervalorizado. Essas partes esquisitas quando se juntam se transformam em um livro que aborda de maneira delicada temas complexos, mas que prefere não se demorar ali, porque estimular sorrisos e cultivar o amor que surge dos pequenos gestos é mil vezes mais importante do que passar páginas e páginas explicando de maneira cientificamente comprovada sobre os diversos tipos de transtornos mentais.

– Sabe, quando eu era mais nova, achava que, se vivesse o bastante, entenderia melhor as coisas. Mas agora sou uma senhora, Mim. E juro que, quanto mais vivo, menos as coisas fazem sentido.

Por conta de tudo isso eu gostei do livro, e também porque o autor não se contentou em me ganhar pelo riso e pelo choro, ele foi mais longe. Mandou MIM, Beck e Walt em agulhadas direto pro cérebro e coração. Um jeito prático e eficaz, eu diria. E mais do que isso: permanente. Estou digerindo ainda, e há trechos que lembro e não posso acreditar que são reais, que são obras da mesma humanidade que mata e destrói.

Em aspectos gerais, minha fé balançada se reajustou com as palavras de Arnold, palavras tão extraordinárias que só podem vir de algo que seja além do mundano. Deus tocou-as de tal modo que tornou-as puras, lindas e certas.

Leia. Viva. Saboreie. A minha Mosquitolândia se tornou menos mega terrestre com a Mary. Essa personagem conseguiu se tornar o meu exemplo do que há de bom no mundo.

Espero que eu tenha conseguido explicar os meus motivos e os meus porquês para indicar essa leitura. E se não consegui, não tem problema. Você merece ler e tirar suas próprias confusas e deliciosas conclusões.+

Câmbio e desligo,
Layla Magalhães,
Amante inescrupulosa de antônimos que cita vodu e Deus na mesma resenha.


Título: Mosquitolândia
Autor:
David Arnold
Lançamento:
2015
Editora:
Intrínseca
Páginas:
352
Sinopse:
“Meu nome é Mary Iris Malone, e eu não estou nada bem.” Após o inesperado divórcio dos pais, Mim Malone é arrastada de sua casa em Ohio para o árido Missis – sippi, onde passa a morar com o pai e a madrasta e a ser medicada contra a própria vontade. Porém, antes mesmo de a poeira da mudança baixar, ela descobre que a mãe está doente. Mim foge de sua nova vida e embarca em um ônibus com destino a seu verdadeiro lugar, o lar de sua mãe, e acaba encontrando alguns companheiros de viagem muito interessantes pelo caminho. Quando a jornada de mais de mil quilômetros toma rumos inesperados, ela precisa confrontar os próprios demô- nios e redefinir seus conceitos de amor, lealdade e sanidade. Com uma narrativa caleidoscópica e inesquecível, Mosquitolândia é uma odisseia contemporânea, uma história sobre as dificuldades do dia a dia e o que fazemos para enfrentá-las.

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2 Comentários

  • Ludyanne Carvalho

    Aaaaaaaaaah, que resenha linda! 💖

    Conseguiu explicar os seus porquês de uma maneira encantadora.
    Eu quase comprei Mosquitolândia, mas fiquei tão na dúvida que acabei cancelando a compra. Agora estou aqui, pensando porquê cancelei.
    Parece uma leitura deliciosa; a jornada de MIM deve ser empolgante e envolvente, e ter a oportunidade de fazer essas reflexões… Ah, eu quero!

    Beijos

    6 de dezembro de 2017 às 13:21 Responder
  • Lili Aragão

    Primeira resenha que leio desse livro e achei bem interessante. MIM parece ser uma personagem especial e cativante, dessas que queremos proteger do mundo. O livro parece ter aquele tipo de história que choramos e rimos ao mesmo tempo e terminamos com uma sensação de estarmos melhores por termos lido ele <3 sendo muito especial. Linda dica 😉 <3

    7 de dezembro de 2017 às 11:04 Responder
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