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Resenha – Menino de Ouro

Publicado em 14 de novembro de 2017
- Drama, Globo Livros, LGBT, Young Adult

LIVRO ESPECIALMENTE INDICADO a leitores que gostam de contemplar quanto o gênero é importante e quanto realmente influencia em quem somos e buscamos ser. Recomendado para quem não teme leituras fortes, que faz com que revejamos conceitos e soframos com sua perda e ressignificação, mas que, por isso, valem extremamente a pena.

A escuridão não é sequer a perda de visibilidade. É apenas uma mudança de cor, de tom. É a mesma coisa que o dia, com uma tonalidade diferente.

Max é um bom menino. Inteligente, bonito, um filho educado e um irmão dedicado, amigo gentil e rapaz responsável, galanteador e, mesmo aparentando ter uma vida perfeita, ele é um mistério. Tudo isso porque Max Walker tem um segredo. Esse é o tipo de pensamento e estrutura de história que você receberá nas primeiras vinte páginas. Poucos sabem desse segredo – os pais dele sabem; seu amigo e primo de consideração sabem. E é nesse momento, entre a página vinte e vinte e um, que você lembra daquela manchete no noticiário falando que as pessoas que sofrem abusos, na maior parte das vezes, são abusadas por alguém que conhecem, intimamente ou não.

Penso sobre como deve ser para um cara grande, forte, com um pau enorme, ter a capacidade de entrar em qualquer lugar e saber que pode dominar e pegar qualquer pessoa que quiser. Eu me pergunto se gostaria de ser assim, se tivesse escolha. Parece uma coisa estranha de ser. Parece uma coisa alienígena.

Este é mais um livro daqueles. Mas NÃO É um livro daqueles.

A questão é que Max Walker é intersexual, e esse é seu segredo. Com 46 cromossomos XX e 46 cromossomos XY, ele é o hermafrodita perfeito, com os dois órgãos sexuais fazendo parte de sua anatomia. É importante ressaltar que Max Walker é intersexual, mas, antes de tudo, Max Walker É. Bom menino, inteligente, bonito, e todos as características destacadas anteriormente. Ser intersexual faz parte do que Max Walker é, mas não É ele. Gosto de lembrar de um estudioso da área existencial, Jean-Paul Sartre, e mais especificamente de uma frase que ele disse uma vez. Parafraseando-o, a frase diz que você não é o que aconteceu com você; você é com o que você FEZ com O QUE te aconteceu. E eu acho estupendamente fantástico.

Não éramos tão fortes como pensávamos. Achávamos que já tínhamos sido testados, e não tínhamos.

Vamos brincar um pouquinho com os verbos: Max ERA Max. Max FOI ele mesmo depois do abuso que sofreu. Max CONTINUOU SENDO Max depois de ter que lidar com as consequências deste acontecimento. Max FORA Max ao perder uma parte dele que mal sabia que existia, que mal recebera e mesmo assim sentira uma falta arrebatadora quando fora embora. Max É Max de um jeito que faz falta no dia-a-dia. Procuro-me pensando agora que mais pessoas deveriam ser como o Max.

Eu disse ao meu irmão o que queria ser, e ele disse que era legal, mas que infelizmente ele não me deixaria lhe adicionar extensões, porque ele quer ser quem ele é e ver como isso vai funcionar. Eu disse que isso era burrice. Quem não gostaria de ser perfeito?

Claro que, durante a leitura, nós fomos Max. Eu fui Max. Eu fui boa aluna, fui gentil, compreensiva, boa irmã e filha, responsável e companheira. Eu fui intersexual. Fui, lá no fundo do coração, vítima de abuso sexual por um conhecido. Fui intimidada, depois humilhada, depois fadada a passar por situações que achei que nunca passaria e, mesmo surpresa e assustada, temia evitá-las pois sabia que a chance de nunca mais voltar a acontecer são grandes.

Eu fui Max Walker por trezentas e oitenta e quatro páginas e, por breves horas de alguns dias, partilhei da luz que ele possuía, do sol interno que havia em seu lindo ser. Fui também a Karen, uma mãe determinada a fazer o melhor para os seus filhos não importe a circunstância ou ocasião; fui Steve, pai determinado a fazer o melhor para seus filhos, ressalvando a opinião deles e o que eles desejam; fui Danny, irmão caçula ressentido sem deixar de amar os que causam os ressentimentos. Compreensivo, nerd, intitulador de si mesmo como estranho, porque, afinal, não o somos todos?; fui Archie, médica e racional que deixa-se invadir pelo caos pessoal totalmente irracional; fui Silvie, altamente improvável, observadora do geral e de si mesma, que como escolha própria escolheu a solidão até que um certo sol em forma de Max Walker aparecesse.

– O que é empatia?
– Empatia é quando você compreende as outras pessoas, mas… você sente a compreensão em vez de pensar sobre ela. É diferente da simpatia. É quando você pode se imaginar sendo a outra pessoa. Você entende o que quero dizer?

Depois de reavaliar todos os trechos marcantes e juntar os caquinhos restantes, concluí que Max Walker não é um menino de ouro apenas por esta gama de características; ele é um menino de ouro por não deixar que tudo o que passou e aconteceu com ele acabasse com essas gamas de características.

Max Walker É enquanto muitos não chegam nem a uma porção de ser. E isso é extraordinário e ordinário ao mesmo tempo. Nós, que não somos, temos carne e osso e pele e carcaça, enquanto Max, que É, está no papel. O que nos resta como leitores é avivar seu espírito e carregá-lo conosco nos pequenos momentos, porque Max Walker é bom demais para ser esquecido.


Título: Menino de Ouro

Autor: Abigail Tarttelin

Lançamento: 2013

Editora: Globo Livros

Páginas: 384

Sinopse: A família de Max não permitiria nenhum desvio na imagem perfeita que havia construído. Karen, a mãe, é uma advogada renomada, determinada a manter a fachada de boa mãe, esposa e profissional. Steve, o pai, é o exemplo do chefe de família presente em sua comunidade, favorito a um importante cargo público. O ponto fora da curva é Daniel, o caçula, que, para os padrões da família Walker, é “estranho”: não é carinhoso, inteligente ou perfeito como Max. Melhor aluno da escola, capitão do time de futebol, atlético, simpático, sucesso entre as garotas: Max, o primogênito, é o menino de ouro. Ninguém poderia dizer que sua vida não é perfeitamente normal. Ninguém poderia dizer que Max esconde um segredo. Ele é diferente, especial. Max é intersexual: nasceu com os dois conjuntos de cromossomos, XX e XY e, portanto, é menino e menina. Ou nenhum dos dois. É a partir do olhar de cada pessoa que orbita a vida de Max que a autora Abigail Tarttelin compõe a sua narrativa em Menino de Ouro. Cada uma das personagens esboça seu dia a dia, suas inseguranças e conquistas, e, principalmente, seu relacionamento com Max. Apesar da dimensão de seu segredo, Max parece à vontade com sua vida. Seus questionamentos sobre sexo, relacionamentos e até sobre rejeição são tantos quanto um adolescente de 15 anos poderia ter. O cenário muda drasticamente quando Hunter, seu melhor amigo desde a infância, volta do passado e abusa de sua confiança da pior maneira que poderia. No romance, Abigail Tarttelin trata de forma sensível, mas direta, as questões da identidade e do que consideramos “ser normal”. A autora traz à tona questionamentos sobre até que ponto o gênero sexual define uma pessoa e suas relações, por dentro e por fora.

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4 Comentários

  • Ludyanne Carvalho

    Layla É incrível com as palavras. 👏👏👏

    Estou boquiaberta com esta resenha… Gosto de leituras fortes ao mesmo tempo que evito, às vezes nos falta emocional para determinada leitura.
    Achei maravilhoso tirar o rótulo do Max, porque ele É Max, apenas Max.
    Ainda não tive a oportunidade de ler algo em que o personagem seja intersexual, confesso que é um assunto que nunca procurei saber e acho meio surreal.
    Mas é genial que esse tema seja abordado, é importante falar sobre gênero. E espero ter a oportunidade de conhecer essa história.

    Beijos

    14 de novembro de 2017 às 21:39 Responder
  • Lili Aragão

    Oi Layla, primeira vez que ouço falar desse livro e achei a resenha bem intensa, se transportar para as páginas e ser cada um dos personagens é um poder valioso que a escrita da autora proporciona ao leitor e o resultado da leitura de sua resenha não poderia ser outro que não o de ficar interessada em conhecer essa história e esperar que ela me marque por essa identificação que você citou e proporcione uma boa leitura 😀 Parabéns pela resenha 😉

    14 de novembro de 2017 às 22:19 Responder
  • Marlene Conceição

    Oi Layla.
    Que premissa mais triste e tocante.
    Eu ainda não tinha visto falar do livro, porém ja quero sem sombra de dúvidas ler.
    Meu coração se parte com a triste realidade vivida por ele, ninguém merece ser vítima de abuso sexual, eu adoro que a premissa nos permite refletir sobre o assunto e ainda nos ensinar uma bonita lição de moral a cerca da vida e sobre resiliência.
    Bjs.

    15 de novembro de 2017 às 11:53 Responder
  • Alison de Jesus

    Olá, ainda que o tema da obra seja forma, podemos perceber que a autora construiu a trama com a delicadeza que ela exige. É impossível não se comover com a história de Max e torcer por ele. Gosto de livros que quebram tabus e suscitam discussões sobre o que antes era considerado indiscutível. Beijos.

    15 de novembro de 2017 às 15:02 Responder
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