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Resenha – Inventei Você?

Publicado em 7 de novembro de 2017
- Drama, Romance, Verus, Young Adult

LIVRO ESPECIALMENTE INDICADO para leitores que gostam de se confrontar com visões novas e diferentes a respeito da vida e de todos os seus fatores. Um livro de reflexões mas cheio de risadas, romance e lágrimas, é uma leitura que surpreende por sua profundidade e excelência de escrita, surpresa muito bem vinda naqueles momentos em que temos muitos livros para ler e não conseguimos escolher um, por exemplo. (Essa leitora ávida e resenhista recomenda que vocês escolham esse aqui.)

O que vocês gostavam de fazer quando eram crianças? Quais eram suas brincadeiras preferidas? Eu, por exemplo, gostava muito de andar de bicicleta. E não apenas andar civilizadamente de bicicleta – eu adorava passar por buracos e obstáculos nas ruas de terra, de fazer de galhos e árvores e jardins países encantados que só eu pudesse atravessar. Por morar na capital de São Paulo na época, meus pais não deixavam que eu perambulasse de bike pela região perigosa, deixando minha querida bicicleta na cidadezinha pequena em que minha avó vive até hoje, Lambari, em Minas Gerais. Recordo-me de aguardar ansiosamente pelas férias – de aguardar ansiosamente pela chance de subir na bicicleta depois do café da manhã e só voltar para casa por volta de cinco horas da tarde.

Quando mais velha, perdi um pouco o amor pela bicicleta, o velho prazer de passar horas andando nela substituído por brincadeiras mais acessíveis: stop, jogos de tabuleiro, videogames e, muitas vezes, a brincadeira da borracha. Não sei quantos de vocês conhecem ou brincaram disso, mas basicamente eu escrevia sim em uma face da borracha e não em outra, fazendo uma pergunta e jogando a borracha para cima – a face dela que me encarava era a resposta para minha questão. Lembro-me que os questionamentos iam desde se fui bem em uma prova até se fulano ou beltrano gostava de mim.

Outra brincadeira semelhante que me remete a infância era uma dobradura de papel em que movimentávamos os dedos nela um total de vezes e escolhíamos uma cor, que no fim, chegava a uma resposta.

O que você amava quando criança vai amar para sempre.

Eu sei o que essas brincadeiras dizem sobre mim e, mais do que isso, sei o que essas brincadeiras dizem sobre nós, seres humanos – queremos respostas. Queremos respostas para o que não sabemos, queremos respostas para o que sabemos mas não aceitamos, queremos respostas diferentes daquelas que temos, queremos respostas que, lá no fundo, não desejamos ter conhecimento, queremos respostas que vão nos magoar, queremos respostas que podem mudar a perspectiva de quem somos e como nos relacionamos, queremos respostas sobre o passado e o futuro e o presente e queremos, mais do que tudo, respostas que sabemos que provavelmente jamais poderemos ter.

Não é invenção de minha memória meus momentos de frustração quando, ao jogar a borracha para o alto e ver que saira um sim para a pergunta em que eu desejava um não, eu voltava a arremessar e atirar e girar a borracha, uma e duas e diversas vezes, até que a borracha mostrasse o que eu queria ver.

E é engraçado, hoje, relembrar como eu fazia isso. É engraçado não porque deixei de escrever em borrachas e dobraduras de papel e os manipular para obter respostas, e sim porque manipulei as maneiras com que enxergo as respostas que me são dadas ou vistas. O que outrora era só girar a borracha mais uma vez ou recomeçar a contagem na dobradura hoje é cegueira, é negação, é indignação. Porque hoje eu quero – porque nós queremos – algo concreto, algo certo. Queremos alicerces firmes para construirmos coisas (construirmos relações, carreira, a nós mesmos), queremos estradas seguras para nossas trajetórias (pessoais, em conjunto, de carro ou de vida), e queremos que obstáculos sejam quase inexistentes e, de preferência, todos evitados. Sem mais passar por obstáculos e buracos nas ruas de terra, sem mais ficar sob árvores e em galhos e na grama fingindo que só eu vivo em todo o mundo.

Nós queremos garantias de que somos reais – de que tudo a nossa volta é real. Relógios e previsões do tempo e noticiários e as famosas DRs e alianças de compromisso e certificados de cursos e calendários e diários e livros e blogs e redes sociais e email-s e rastreamento de compras e boletos e seguro de vida e holerites e extratos bancários. Mais do que ferramentas de nosso cotidiano e aspectos de uma vida, buscamos e temos todos os componentes citados porque são garantias que vivemos, que realizamos, que criamos… que nosso mundo é real.

Às vezes, acho que as pessoas tomam a realidade como algo certo.
Quer dizer, como você pode distinguir um sonho da vida real? Quando está no meio do sonho, a pessoa pode não saber, mas, assim que acorda, entende que o sonho era um sonho e, seja lá o que tenha acontecido nele, bom ou ruim, não era real. A menos que se esteja na Matrix, este mundo é real, e o que se faz nele é real, e basicamente é só isso que se precisa saber.
As pessoas tomam isso como certo.

E se não nos fosse possível perceber o que é de verdade ou não? Sonho, pesadelo e realidade? É com essa perspectiva que passamos pelas páginas de Inventei Você?.

Alex é uma adolescente típica – se sente tímida com o tom berrante de seu cabelo ruivo, característica passada de mãe para filha e que muitos crêem ser obra de uma tintura no cabeleireiro; ama e odeia a escola e o que seus colegas de turma fazem; amava salvar lagostas quando mais nova e ama a lembrança de tê-las salvado na infância, com a ajuda de um garoto de olhos azuis, assim como amava o achocolatado que sua mãe lhe comprava; tem uma bola mágica que, como a borracha e a dobradura, ao ser balançada, mostra-lhe a resposta para uma pergunta; tem uma mãe presente, um pai que trabalha muito e uma irmã que é uma fonte de irritação e, ao mesmo tempo, de refúgio. Alex é uma adolescente típica – com exceção de ser esquizofrênica.

Partindo do pressuposto que vocês podem não conhecer o que é esquizofrenia, eis uma pequena descrição: ela é uma doença química que altera os neurotransmissores do cérebro. Atingindo cerca de 1% da população, ela está presente em todas as culturas, extratos sociais e regiões. Os acometidos podem ter delírios, alucinações, fala desorganizada, comportamento catatônico, disfunção social e transtornos de humor. Agora, imaginem-se lendo esse livro, pensando e vivendo e sentindo o que Alex pensa e vive e sente, sem poder pegar a borracha para ter respostas, sem recorrer a cegueira ou a negação, totalmente entregue ao que a protagonista sabe (ou acha) que é real ou não.

Era tudo inventado? Será que o mundo inteiro estava dentro da minha cabeça? Se algum dia eu acordasse disso, estaria dentro de uma sala acolchoada em algum lugar, babando em cima do meu corpo?

Vocês podem ter se questionado sobre o que é real ou mentira alguma vez na vida. Se isso não ocorrera, eu conto minha experiência: é horrível. Todos os calendários e boletos e diários não valem de nada para comprovar que estamos de fato aqui, agindo. Por isso, fora extraordinário – e doloroso – ter, com o ponto de vista de Alex, a chance de questionar quase tudo, quase todas as coisas. E o livro não é feito só de esquizofrenia, é importante frisar – ele é feito da Alex. De seus medos, amores, gostos, vivências, memórias e pensamentos. Ela é esquizofrênica, mas não é apenas e unicamente a esquizofrenia. Ela não é maluca. Ela não é uma aberração. Ela é uma chance de compreendermos um pouco melhor o outro e praticarmos a empatia.

Inventei Você? é uma das minhas leituras preferidas do ano porque Alex possibilitara uma série de reflexões e identificações e novas respostas que borracha nenhuma no mundo poderia. Ela modificou o que achei que sabia, adicionou patamares novos em meu conhecimento, me fez rir – muito mesmo! Ela é divertidíssima e, como eu, adepta ao sarcasmo e um bom palavrão para extravasar – e chorar e reviver e ressignificar memórias e desejos. Com romance, personagens bem construídos, reviravoltas de esmagar o coração e frases que serão carregadas para toda a vida, o livro de Francesca Zappia fora como andar de bicicleta mais uma vez, passar em alta velocidade por buracos, fazer de lombadas meus obstáculos e viver em outro corpo, outra mente, outro mundo por um breve – mas bem vindo – período de tempo.

E se você acha que esse livro não se qualificaria muito para sua lista de leitura ou sua meta anual, talvez até mesmo da vida, eu (e Alex) argumento que você já se confrontou com a possibilidade de que uma coisa que você amava muito não era verdadeira – seja um namorado, uma amiga, uma concepção, um personagem que se mostrava genuíno mas que era um falso. Você já se confrontou com uma situação dessas e pode ter superado muito bem; em contraposição, você pode ter somatizado, pode não ter significado essa crise de forma boa para você, pode estar passando por isso agorinha mesmo, enquanto lê essa resenha. É dito por aí que leitores vivem mais de uma vida, e eu concordo. Entretanto, mais do que viver essas vidas, devemos aprender com elas.

Acreditar que algo existia e depois descobrir que não era como chegar ao topo da escada e pensar que ainda havia mais um degrau.

Que tal aprendermos um pouco com Alex – adolescente, esquizofrênica, super ruiva e, acima de tudo, humana?

Inventei Você? me fez ver que as respostas são várias, e não só uma. Que suas possibilidades são infinitas. Que Alex não precisou – que eu nunca precisei – de borrachas e papéis e bolas mágicas. Que minhas perguntas e meus atos e eu posso modificá-las. Alex me fez rever que, por mais que a realidade não me agrade tanto quanto os mundos de sonho, ela é melhor do que qualquer coisa que eu pudesse inventar. Alex me fez rever que, por mais que eu, meu jeito de agir, minhas inseguranças e medos não me deixem contente, sou melhor do que qualquer outro eu que pudesse inventar. Que você é melhor do que qualquer outra versão sua que pudesse inventar.

Porque a realidade é que eu e você somos reais.

 


Título: Inventei Você?
Autora: Francesca Zappia
Lançamento: 2017
Editora: Verus
Páginas: 346
Sinopse: Alex está no último ano do ensino médio e trava uma batalha diária para diferenciar realidade de ilusão. Armada com uma atitude implacável, sua máquina fotográfica, uma Bola 8 Mágica e sua única aliada — a irmã mais nova —, ela declara guerra contra sua esquizofrenia, determinada a permanecer sã o suficiente para entrar na faculdade.
E Alex está bem otimista com suas chances, até se deparar com Miles. Será mesmo aquele garoto de olhos azuis com quem ela compartilhou um momento marcante no passado? Mas ele não tinha sido produto da sua imaginação?
Antes que possa perceber, Alex está fazendo amigos, indo a festas, se apaixonando e experimentando todos os ritos de passagem tipicamente adolescentes. O problema é que ela não está preparada para ser normal.
Engraçado, provocativo e emocionante, com sua protagonista nada confiável, Inventei você? vai fazer os leitores virarem as páginas alucinadamente, tentando decifrar o que é real e o que é invenção de Alex.

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4 Comentários

  • Ludyanne Carvalho

    (Aquele suspiro ao chegar no fim da resenha)

    Eu sempre gostei de imaginar; quando criança era o que eu mais fazia, recortava pessoas de revistas e começava a criar histórias, sempre imaginando vidas perfeitas. Ainda carrego isso comigo, minha mente sempre está imaginando histórias, e sempre perfeitas.
    De algumas forma é isso que queremos. Saber estamos seguros, estabilizados, mais do que procurar respostas, queremos certezas.
    E o que é certo? E até quando dura o que temos como certo?
    Porque nossa vida é repleta de possibilidades…
    Ah, Layla, tantas reflexões sua resenha me trouxe.
    Já li algumas resenhas sobre este livro, mas até então nenhuma tinha me chamado atenção. Mas essa… Que vontade de conhecer a história da Alex.

    Beijos

    7 de novembro de 2017 às 16:27 Responder
  • Lili Aragão

    Tenho visto resenhas bem bacanas desse livro e a sua elevou o patamar do livro, se já tava interessada antes agora tenho certeza que quero ter a oportunidade de ler esse livro futuramente, e não só pelo fato dele desmistificar a esquizofrenia, o que acho bem importante por sinal pois muitas pessoas pensam que aqueles que tem algum tipo de distúrbio mental tem que viver isolados e o livro nos apresenta uma personagem humana, real e palpável, que poderíamos facilmente conhecer, conviver, criar laços… mas também pelo fato do livro abrir horizontes e do fato de que ele adicionou patamares ao seu conhecimento, isso é forte e importante 😀 Ótima resenha, relembrou-me brincadeiras da infância, andar de bicicleta também era um dos pontos altos dos meus dias antigamente 😉

    8 de novembro de 2017 às 10:08 Responder
  • Marlene Conceição

    Oi.
    Menina que resenha.
    Eu vou confessar algo e não fique decepcionada comigo.
    Eu estou enrolando muito par ler esse livro e não é porque eu não quero ler, o problema é que estou passando por uma terrível ressaca literária e leitura nenhuma está fluindo para mim. Ver você falando de sua infância, me lembrou a minha própria infância, as brincadeiras com bolinhas de gude e pega-pega, eu, assim como você, adorava andar de bicicleta, porém meu robe era andar o mais rápido que conseguisse, isso como já era de se esperar, me renderam muitos machucados e cicatrizes, porém eu era feliz fazendo isso, e mesmo não sendo o melhor para mim, fazia toda a diferença.
    Eu adorei a premissa desse livro e confesso que meu coração já está doendo um pouco por ela, essa dúvida de tentar distinguir o que é ou não real, desse ser horrível, fico feliz que o livro te levou a muitas reflexões e espero que quando enfim chegar minha vez, desejo que minha experiência também seja muito positivam, enfim, não vejo a hora de ler.
    Bjs.

    12 de novembro de 2017 às 18:43 Responder
  • Alison de Jesus

    Olá, depois dessa resenha a única coisa que posso fazer é adicionar essa obra na minha lista de desejados. Adoro livros que abordam doenças, pois assim podemos ter uma maior perspectiva da vida de pessoas que portam alguma patologia, por meio dos personagens. Aqui temos uma protagonista muito bem caracterizada e que consegue cativar o leitor logo de início. Beijos.

    15 de novembro de 2017 às 14:48 Responder
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