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Resenha – Garota em pedaços

Publicado em 28 de abril de 2017
- Planeta, Resenhas, Young Adult

LIVRO ESPECIALMENTE INDICADO PARA todos os leitores que buscam uma história real, forte, difícil de digerir, mas necessária para que haja uma maior compreensão acerca dos transtornos aqui abordados. Ideal para ler naquele momento em que podemos nos entregar à narrativa, de corpo, alma e coração; e permitir que ela nos transforme de maneira muito significativa. ATENÇÃO: pode disparar gatilhos em quem sofre de depressão ou enfrenta problemas relacionados a comportamentos auto lesivos.

Garota em pedaços é o meu tipo de livro. Adoro narrativas que abordam questões psicológicas, que me permitam ver transtornos mentais, emocionais ou de comportamento sob a perspectiva de quem vivencia tudo aquilo. Acredito que dessa forma a gente consegue, mesmo que de maneira superficial, ter uma dimensão do impacto que determinados acontecimentos podem ter na vida das pessoas. Este livro permite esse tipo de vivência ao nos contar a história de Charlotte Davis – ou Charlie – uma menina que sofre de transtorno de controle de impulso e que, por conta disso, se automutila.

Narrado em primeira pessoa o livro inicia com a protagonista contanto sobre sua chegada em uma clínica psiquiátrica. Com uma mudez seletiva, Charlotte vai revelando para o leitor, através de lembranças e pensamentos, tudo aquilo que esperam que ela verbalize durante as conversas em grupo ou sessões de terapia. E ela quer falar, ela precisa falar, mas não é fácil. As feridas dessa jovem não estão somente na superfície das coxas ou nos braços envoltos por ataduras. Não foram somente os machucados físicos que ameaçaram tirar a vida da adolescente e a deixaram sem coragem para falar.

O corte é uma cerca que você constrói no próprio corpo para manter as pessoas do lado de fora, mas depois você chora para ser tocada. Mas a cerca é de arame farpado. E agora?

Permanecer na clínica permite que a protagonista vá, aos poucos, se fortalecendo. Ao entrar em contato com realidades muito próximas da sua, e ao perceber que está em um ambiente de certa forma seguro e acolhedor, Charlie começa a compartilhar sua história com as colegas e com a terapeuta. Mas quando parecia que tudo estava começando a melhorar, ela precisa sair da clinica e voltar para o mundo. E como fazer isso quando o mundo se mostrou um lugar violento e hostil?

O livro gira em torno disso. Não somente fala sobre os abusos que a protagonista sofreu, em casa ou na rua, mas fala também sobre a jornada de alguém que quer ter uma vida menos sofrida. Garota em pedaços fala sobre Charlie e sua busca por salvação, mas conta também a história de vários personagens secundários que, cada um de alguma maneira, contribui para a redenção de uma menina que se perdeu dentro de si.
A narrativa ora é impulsiva, frenética, grosseira e direta; em outros momentos é sensível, coesa, é calmaria. Um recurso que achei incrível, pois reflete exatamente o estado emocional da personagem, que vive numa espécie de gangorra sentimental. Aqui o transtorno de controle de impulso – automutilação – é apresentado da maneira tragicamente realista, como precisa ser. A gente sente o sofrimento de jovens que mutilam o próprio corpo porque esperam que a dor física seja capaz de calar os gritos da dor emocional. A autora relata através de personagens como Louisa, o que acontece quando isso não é suficiente. Mas fala também que existem possibilidades de sublimar esses impulsos, mas é importante pedir ajuda. É imprescindível aceitar ajuda.

Louisa tem queimaduras em círculos concêntricos na barriga. Tem também linhas que parecem raízes nas partes internas dos braços. As pernas são queimadas e entalhadas com desenhos de traços delicados. Tatuagens cobrem as costas dela. Louisa está ficando sem espaço.

Se eu recomendo a leitura? MUITO. Este não é só mais um draminha adolescente. Os problemas aqui não são de modo algum romantizados. Garota em pedaços, ao meu ver, é uma espécie de pedido de socorro sem rosto, mas que pode ser atribuído a qualquer pessoa que passa por situação minimamente parecida. É um livro que precisa ser lido e apreciado. É possível tirar muitas lições daqui.

Escrevi a história de Charlie Davis para quem se corta, se queima e para os adolescentes na rua que não têm um lugar seguro para dormir. Escrevi a história de Charlie Davis para as mães, e pais e amigos desses adolescentes. Charlie Davis encontra sua voz e seu consolo nos desenhos. Eu encontro os meus na escrita. Qual é o seu consolo? Você sabe? Encontre-o e não pare nunca de fazê-lo. Encontre sua gente (porque você precisa falar), sua tribo, seu motivo para existir, e juro que d outro lado a coisa vai começar a emergir, de forma lenta, mas segura. Não faz sempre sol e nem sempre é um mar de rosas, e às vezes a escuridão fica bem sombria, mas estamos cercados de pessoas capazes de entender e de nos provocar gargalhadas suficientes para aliviar as pontas afiadas e nos ajudar a chegar ao dia seguinte. Por isso: Vá.


Informações retiradas do livro – Como obter ajuda

° Se você ou alguém que você conhece se automutila, procure ajuda agora.
Ambulatório Integrado de Transtornos de Impulso do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo.
(IPq – HCFMUSP)
Telefone: (11) 2661-7805
Instituto de Psiquiatria da Universidade federal do Rio de Janeiro (Ipub)
Telefones: (21) 3938-5574/3938-5578
° Se você ou alguém que você conhece sofre de depressão, procure ajuda agora.
Associação Brasileira de Familiares, amigos e Portadores de Transtornos Afetivos (Abrata)
Telefone: (11)3256-4831
° Se você ou alguém que você conhece tem tendências suicidas, procure ajuda agora.
Centro de Valorização da Vida (CVV)
Telefone: 141
Site: www.cvv.org.br

Livro: Garota em pedaços
Autora: Kathleen Glasgow
Lançamento: 2017
Editora: Novo Planeta
Páginas: 384
Sinopse: Além de enfrentar anos de bullying na escola, Charlotte Davis perde o pai e a melhor amiga, precisando então lidar com essa dor e com as consequências do Transtorno do Controle do Impulso – um distúrbio que leva as pessoas a se automutilarem. “Viver não é fácil”. Quando o plano de saúde de sua mãe suspende seu tratamento numa clínica psiquiátrica – para onde foi após se cortar até quase ficar sem vida -, Charlotte Davis troca a gelada Minneapolis pela ensolarada Tucson, no Arizona (EUA), na tentativa de superar seus medos e decepções. Apesar do esforço em acertar, nessa nova fase da vida ela acaba se envolvendo com uma série de tipos não muito inspiradores.
Cansada de se alimentar do sofrimento, a jovem se imbui de uma enorme força de vontade e decide viver e não mais sobreviver. Para fugir do círculo vicioso da dor, Charlotte usa seu talento para o desenho e foca em algo produtivo, embarcando de cabeça no mundo das artes. Esse é o caminho que ela traça em busca da cura para as feridas deixadas por suas perdas e os cortes profundos e reais que imprimiu em seu corpo.

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13 Comentários

  • Lili Aragão

    Oi Krisna, o livro parece ser bem intenso e trata de um assunto sério e que ainda não li sobre ele, a automutilação, e achei a resenha bem legal, a indicação super importante e os números que tem no livro e você incluiu ao final pra ajudar a quem sofre com isso muito legal 😉

    28 de abril de 2017 às 16:52 Responder
  • Marlene Conceição

    Oi Krisna.
    Eu adorei a premissa desse livro, e fiquei muito empolgada para ler depois da sua resenha, eu também assim como você adoro livros que abordam assuntos como problemas mentais e psicológicos, preciso ler com toda certeza.
    Bjs.

    28 de abril de 2017 às 17:25 Responder
  • Ludyanne Carvalho

    Estava mesmo querendo uma resenha sobre Garota em pedaços. É um livro que entrou na minha lista assim que vi que seria lançado, mas depois desanimei. A história me parece tão real (e de certa maneira é) que não sei se terei emocional para isso.
    Mas a autora merece 👏👏👏👏👏👏👏👏👏 por falar de um assunto, infelizmente, tão frequente nas nossas vidas mas que acaba sendo um tabu.
    Amei a resenha.

    28 de abril de 2017 às 18:19 Responder
  • Cristiane Dornelas

    Também acho bem interessante quando um livro aborda temas fortes assim, questões psicológicas e etc por dar uma ideia de como é para a pessoa. Acho legal ter esse entendimento, essa ideia do que eles sentem. E parece que o livro mostra bem isso, os abusos e as coisas que ela passa além de um pouco sobre outros personagens também e o impacto deles. Parece uma boa história.
    Me deixou com vontade de ler =)

    28 de abril de 2017 às 23:07 Responder
  • Alessandra Fernandes

    O sick-lit está bastante popular, principalmente os que envolvem temas mais tabus, como nesse caso a automutilação, que é bem diferente do suicídio, por sinal. Eu gosto destes temas pois podemos sentir, ao menos, um pouco da realidade de quem realmente passa por isso. Sua resenha me fez querer ler o livro o quanto antes.
    Bjos!

    28 de abril de 2017 às 23:28 Responder
  • Leonora Oliveira

    Adorei a temática do livro, e achei super bacana a ideia da capa remeter as cicatrizes. Acredito que seja um livro muito envolvente apesar de doloroso. Ele nos ensina conhecer mais sobre as dores dos outros e a ter mais empatia. Espero ter a oportunidade de ler também.
    Beijos!

    29 de abril de 2017 às 01:25 Responder
  • Leituras da Ketellyn

    Eu não estava esperando que o livro se tratava disso, mas não poso negar que ele chamou a minha atenção. Adorei a capa, a resenha esta ótima e me conquistou a querer ler e adorei o quotes que voce adicionou. Obrigado pela dica, Bjss

    29 de abril de 2017 às 22:23 Responder
  • Caroline Garcia

    Com uma temática pra lá de importante, tem cara de ser uma história bem intensa né?
    Confesso que essa questão, de abordarem esses temas psicológicos, não é muito a minha praia.
    Meu coração não aguenta essas fortes emoções. Gosto dos bons e velhos romances rs.
    Vejo muitos comentários positivos em relação a obra, mas por enquanto não leria não.
    Mas fico contente por ver que você aproveitou bem a leitura.
    Beijos,
    Caroline Garcia

    30 de abril de 2017 às 02:30 Responder
  • Aichha Carolina Pereira

    Oi Krisna,
    Gosto bastante quando o autor altera elementos na narrativa nos demonstrando o estado de espírito do personagem. Parabéns por acrescentar as informações no final da resenha.
    beijos

    30 de abril de 2017 às 22:33 Responder
  • Kris Soares

    Não consigo pensar em um tema mais atual que esse, atual e necessário sempre ser discutido. Adorei a resenha!

    1 de maio de 2017 às 00:19 Responder
  • Priscila Tavares

    Ultimamente tenho lido diversos livros que falam sobre assuntos que deveriam ser falados e tenho adorado a experiência. Claro que esse não poderia ficar de fora né.
    Beijokas
    Quanto Mais Livros Melhor

    1 de maio de 2017 às 02:13 Responder
  • suzana cariri

    Oi!
    Gostei muito dessa resenha, ainda não conhecia esse livro, mas achei bem interessante essa historia e o modo que a autora trabalha com esse tema, nos mostrando já o período no qual a personagem está passando pelo tratamento, pois todos os livros que vi que falava sobre algum tema parecido sempre pula essa parte e mostra só o começo e o final, por isso fiquei interessada nesse livro !!

    1 de maio de 2017 às 18:30 Responder
  • Anne Pimentel

    Ahiiii chega me arrepio.
    Terminei de ler esse final de semana e estou APAIXONADA por esse livro.
    Sério, bem escrito demais!!!

    Literatura Estrangeira

    8 de maio de 2017 às 18:45 Responder
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