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Resenha – Enclausurado

Publicado em 22 de setembro de 2017
- Cia das letras, Resenhas, Romance

LIVRO INDICADO ESPECIALMENTE PARA quem gosta textos com humor, inteligência e muita criatividade e tem curiosidade em ler um texto narrado de uma maneira completamente diferente e inovadora.

A resenha de hoje é de Enclausurado, o livro mais recente do autor britânico Ian McEwan, considerado um dos maiores nomes da ficção britânica contemporânea. Esse foi o segundo livro que li do autor que aqui no Brasil é publicado pela Companhia das Letras.

Considero-me um inocente, descomprometido com lealdades e obrigações, um espírito livre, apesar do pouco espaço que disponho. Ninguém para me contradizer ou repreender, sem nome nem endereço anterior, sem religião, sem dívidas, sem inimigos. (…) Considero-me um inocente, mas tudo indica que participo de uma conspiração. Minha mãe, abençoado seja seu incansável e barulhento coração, parece estar envolvida.

Assim somos apresentados ao nosso narrador logo nas primeira páginas de Enclausurado. Ele é um feto e durante todo o livro vai nos contando tudo o que sente e consegue observar de dentro da barriga de sua mãe. Nunca tinha imaginado que um feto poderia ser o narrador de uma história. Ian McEwan foi totalmente inovador ao escolher narrar desta forma.

Nosso narrador sabe que sua mãe, Trudy, se encontra regularmente com Claude, um “amigo”, e que os dois estão tramando a morte de seu pai. Ele se ressente de fazer parte desta conspiração, mas por mais que não concorde com as atitudes de sua mãe não há nada que ele possa fazer para impedir. Não lhe é dada sequer a opção de escolha de não ouvir essas conversas, ele está com sua mãe o tempo todo.

Aos poucos ele nos conta o que sabe e percebe dos envolvidos nessa história. Seu pai, John Cairncross, é um poeta sem renome, porém resistente. Atualmente está morando em um apartamento a pedido da esposa. Ela disse que eles precisavam de espaço, mas ele acredita que irão se reconciliar. É dono de uma pequena editora que não dá nenhum lucro, mas herdou uma propriedade muito valiosa. Nosso narrador tem muito orgulho de seu pai e do modo que ele vive a vida.

Já Claude, o amante de sua mãe, é visto com um “ignorantão“, termo que ele ouviu uma vez e tomou nota. Vive assobiando jingles que ouviu na TV ou toques de celular, trabalha como incorporador de imóveis, faz comentários repetitivos e sempre, independente do contexto ou necessidade, termina suas frases com um “mas”. Ele é o oposto do seu pai, tudo o que Claude faz ou fala o irrita profundamente. Se não bastasse ter aguentar a presença dele ainda morre de medo de ser atingido quando os dois fazem sexo, momento que ele apelidou de Parede da Morte.

Toda vez, a cada movimento do pistão, temo que ele rompa a barreira, perfure os ossos ainda moles de meu crânio e irrigue meus pensamentos com a essência dele, com o creme abundante de sua banalidade. Depois, com o cérebro afetado, vou pensar e falar como ele. Serei o filho de Claude.

Já a mãe é uma figura que provoca sentimentos muito contraditórios no nosso narrador. Ele sabe que sua vida está extramente ligada à dela, a ama profundamente e acredita que ela também o ame. Mas certas atitudes que ela toma não condizem com esse sentimento tão especial, e ele chega a duvidar do amor dela nesses momentos. A própria Trudy vive momentos de dúvida e questionamento quanto suas própria escolhas.

Tento vê-la e amá-la como devo, imaginando seus problemas: o vilão que pegou como amante, o santo que está deixando para trás, o ato com o qual concordou (…). Amá-la ainda? Se não, foi porque você nunca amou.  Mas eu amei, amei, sim. Amo.

Não podemos nos esquecer que a história é narrada sob o ponto de vista de um feto e baseado nos conhecimentos e informações que ele obteve no curto período de sua existência. Mas apesar de ele ainda não ter nascido, já é capaz de fazer suas próprias teorias e de aprender  através de tudo escuta. Sua mãe adora ouvir rádio e podcasts (principalmente áudios de palestras e de livros de autoajuda), então ele já tem um certo “conhecimento” sobre o mundo exterior. Chego a pensar até que ele sabe mais do que muitas pessoas que já viveram muitos anos.

Foi mágico acompanhar esta história narrada de uma maneira tão singular. Fiquei pensando em como deve ser no mundo real esse período na vida dos bebês. Será que eles realmente conseguem elaborar teorias e pensamentos tão complexos? Onde será que fica armazenado em nossa mente o que aprendemos e vivemos nesse período? Será que algum dia a ciência e a tecnologia vão evoluir a ponto de conseguiremos acessar todo esse conhecimento? Não sei se viverei para ter essas respostas mas não posso deixar deixar de registrar esses questionamentos, quem sabe alguém responde isso lá no futuro né?

Enclausurado é um livro curto, apenas 200 páginas, mas com um texto muito bem escrito e recheado de referências filosóficas (uma das minhas novas paixões). O texto é bastante descritivo, mas isto já era esperado por conta do narrador e do local onde ele se encontra.  Ao longo da leitura fiz várias pesquisas, tanto sobre pessoas reais e teorias citadas na obra quanto de palavras que eu desconhecia o significado. Por isso, pode ser, que seja um pouco difícil pegar um ritmo no início. Mas já deixo meu pedido para que não desistam, porque com certeza essa será uma leitura enriquecedora para vocês, assim como foi para mim.

Como eu disse esse foi o segundo livro que li do autor. A Companhia das Letras publicou ao todo doze obras do autor aqui no Brasil. Ano passado eu li “A balada de Adam Henry”, um livro que divide opiniões devido ao tema abordado. Nele uma juíza britânica, que está passando por problemas pessoais, precisa decidir se um adolescente de dezessete anos deve receber tratamento médico mesmo contra o desejo dos pais devido a religião deles. Ian McEwan também é autor do livro “Reparação” que foi adaptado para o cinema como o título “Desejo e Reparação” e conta com a atuação de Keira Knightley e James McAvoy ( o Xavier na versão jovem dos X-men) que foi indicado ao Oscar.

Espero que tenham gostado da resenha e que a leitura de Enclausurado seja tão boa para vocês como foi pra mim. Beijos e até a próxima resenha.


Título: Enclausurado
Autor: Ian McEwan
Lançamento: 2016
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 200
Sinopse: O narrador deste livro é nada menos do que um feto. Enclausurado na barriga da mãe, ele escuta os planos da progenitora para, em conluio com seu amante — que é também tio do bebê —, assassinar o marido. Apesar do eco evidente nas tragédias de Shakespeare, este livro de McEwan é uma joia do humor e da narrativa fantástica. Em sua aparente simplicidade, Enclausurado é uma amostra sintética e divertida do impressionante domínio narrativo de McEwan, um dos maiores escritores da atualidade.

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6 Comentários

  • Lili Aragão

    Oi Thaís, essa resenha me deu uma nostalgia e me lembrou aquele filme onde bebês se comunicavam, Olha quem está falando com John Travolta, deu até vontade de assistir rsrs.
    Ver um feto como protagonista deve render uma leitura bem interessante e divertida, já ri com a parede da morte kkkk e apesar de ainda não ter tido a oportunidade de conhecer as obras do autor, achei tudo muito interessante e o fato do livro não ser tão grande positivo. Depois que vi que o protagonista é um feto fui olhar a capa de novo, porque ela tava meio estranha sem ler a resenha ou a sinopse 😀 😀
    Ótima resenha e surgindo a oportunidade vou querer ler com certeza 😉

    22 de setembro de 2017 às 14:47 Responder
  • Hérica Lima

    Bem diferente mesmo. Como um feto pode narrar? Que diferente história. Vou adorar ler.
    Esse autor tem uma criatividade e tanto, pois esse narrador está dentro da mãe e sabe das histórias que estão tramando contra seu pai e não pode fazer nada.
    Não sabia desse livro e nem do autor, porém já quero muito ler.
    Beijosss.

    22 de setembro de 2017 às 15:16 Responder
  • Ludyanne Carvalho

    Que incrível, Thais!

    Assim que vi o título, já comecei imaginar do que se tratava; pensei em terror. E outras coisas… mas nunca imaginaria que é uma história narrada por um feto.
    Uau! Surpreendente!
    Pelo visto ele não tem um nome ainda, mas mesmo assim já me encantei por ele. Já têm opiniões formadas. Preferências.
    Tadinho ter de passar pela “Parede da morte”. Imagino que seja uma leitura hilária, ler sobre o ponto de vista de um feto, e que provavelmente tem muito a nos ensinar é fantástico.
    Não conhecia o autor, que legal poder conhecer um pouquinho sobre o trabalho dele.

    Beijos

    22 de setembro de 2017 às 21:17 Responder
  • rudynalva

    Thaís!
    á sou bem fã de releituras, porque trazem sempre uma visão diferenciada do original.
    E aqui o autor foi bem feliz em se utilizar de um feto como narrador de uma história clássica de Shakespeare.
    Fiquei fascinada com sua resenha e toda explanação que fez sobre o livro, obrigada!
    Desejo uma semana maravilhoso!!
    “O primeiro passo para a cura é saber qual é a doença.” (Provérbio Latino)
    Cheirinhos
    Rudy
    TOP COMENTARISTA DE SETEMBRO 3 livros, 3 ganhadores, participem.

    24 de setembro de 2017 às 21:20 Responder
  • Marta Izabel

    Oi, Thaís!!
    Nossa que livro mais incrível!! Amei a premissa dele e é bem diferente o narrador do livro ser apenas um feto que sabe o que vai acontecer o assassinato do seu pai e não tem como ele salvar o seu pai dessa, nunca li nada do autor mas fique bem interessada em conhecer mais das suas obras!! Obrigada pela indicação!!
    Bjoss

    24 de setembro de 2017 às 22:23 Responder
  • Pamela Mendes

    O livro é bem curtinho mesmo, mas tem uma história bem interessante. Também achei super diferente o livro ser narrado pelo feto, e fiquei aqui pensando como deve ter sido o resultado disso kkkk
    Mas eu confesso que não gosto nem um pouco de livros que envolvem traição, e só isso já me fez perder a vontade de ler esse livro =/
    Bjss ^^

    26 de setembro de 2017 às 00:57 Responder
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