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Resenha – Dumplin’

Publicado em 21 de agosto de 2017
- Resenhas, Valentina, Young Adult

LIVRO ESPECIALMENTE INDICADO PARA quem busca narrativas que saem da caixinha.  Ideal para quem gosta de histórias com foco no empoderamento, autoconhecimento e amadurecimento emocional.  Para ler naqueles momentos em que buscamos uma obra sensível, divertida, irônica e capaz de emocionar quem lê. É difícil ser imune a Dumplin’.

Olá, pessoal! A resenha de hoje é de um livro que sem dúvidas entrou para minha lista de favoritos. Eu gostei de Dumplin quando li a sinopse e vi que se tratava de uma história que ia na contramão dos padrões que vemos por aí. Quando a Valentina confirmou a publicação no Brasil, eu aguardei ansiosamente. Agora conto para vocês como foi minha experiência com a obra.

Julie Murphy apresenta Willowdean, uma jovem de 17 anos que é bem diferente das protagonistas que estamos acostumadas a encontrar por aí. Ela é gorda, tem celulites e culotes que ficam aparentes independente da roupa que vista, mas pelo que parece não liga muito para isso. Ela se reconhece como alguém fora dos padrões e se aceita como é, entendendo que o ser humano é muito mais do que apenas um corpo.

Às vezes, descobrir quem você é implica entender que o ser humano é um mosaico de experiências. Eu sou Dumplin’, Will e Willowdean. Gorda. Feliz. Insegura. Corajosa.

Willow mantém um relacionamento confuso com a mãe, uma ex-miss que embora não assuma de maneira direta, de forma velada demonstra insatisfação por ter uma filha acima do peso. Talvez isso aconteça porque essa mãe há anos cabe no mesmo vestido que usou no dia em que foi coroada a nova Miss Flor do Texas, ou quem sabe porque já foi gordinha quando mais jovem e conseguiu emagrecer. Talvez os conflitos no relacionamento entre as duas surjam porque essa mãe sabe que sua irmã Lucy, obesa, sofreu as consequências dessa condição, ou simplesmente porque espera de Will uma perfeição difícil de alcançar. E muito injusta também.

A perfeição não é nada mais que um fantasma que perseguimos.

Em contrapartida Will tem uma melhor amiga com quem pode compartilhar seus melhores e piores momentos, além da paixão pela diva Dolly Parton. Mas até esse relacionamento acaba ficando confuso em determinado momento, principalmente porque Bo entra na história e mexe com Will de uma forma como jamais aconteceu.

Bo é o garoto bonitão, aquele por quem todas as meninas ficam interessadas. Forte, inteligente e com um jeito calado que só aguça ainda mais a curiosidade feminina, ele desperta logo de cara os mais variados sentimentos em Will. Mas tudo complica quando ele retribui os sentimentos e se mostra verdadeiramente interessado por ela. E agora, o que fazer quando o garoto mais gato do pedaço se apaixona justamente pela menina gorda, a que sofre bullying dos outros e motivo de piada?

A partir desse momento Will começa a se questionar. Sua autoestima antes tão para cima começa a ficar balançada, e a ideia de que é indigna de namorar alguém tão bonito faz com que ela duvide de quem é, do que merece e do que é capaz. E é por conta de toda essa confusão de sentimentos que ela, num momento impulsivo, se escreve no concurso de beleza Miss Jovem Flor do Texas. E embora não seja sua intenção, essa atitude estimula outras garotas que ‘fogem dos padrões’ a se inscreverem também, cada uma por um motivo. A partir deste ponto nós vemos nascer uma amizade entre meninas muito diferentes entre si, mas que têm em comum uma necessidade imensa de pertencimento, de empoderamento e de mandar às favas todas as imposições feitas pela sociedade.

Dumplin’ me encantou do início ao fim. Primeiro porque é muito real e direto quando descreve seus personagens, e quando se trata da protagonista não usa artifícios que geralmente encontramos por aí quando um autor quer apresentar uma personagem mais cheinha. Aqui não lemos que Will ‘tem o corpo voluptuoso’ ou que ‘tem curvas nos lugares certos’. As características físicas e também as emocionais são colocadas de maneira muito assertiva, sem nunca ‘enfeitar’ para deixar bonito, perfeito. É tudo humano, com toda a carga que ser humano significa.

Linda, foi o que ele disse. Gorda, é o que eu penso. Mas será que não posso ser as duas coisas ao mesmo tempo?

Outro ponto que me agradou bastante foi o fato de que os personagens são factíveis e trazem questionamentos muito reais. Aqui temos a necessidade de lidar com questões que causam sofrimento, mas que precisam ser ressignificadas para que seja possível seguir em frente. Temos a necessidade de amadurecimento que vem após perdas, mas que muitas vezes nos permitem ser pessoas melhores e mais felizes. O amor também é outro ponto importante do livro e está presente em suas diversas formas: o amor pelo outro, por quem já se foi, por quem está por perto mas se mantém distante. O amor que causa sofrimento, o que liberta, mas principalmente, o amor próprio. Tão fundamental e mesmo assim tão difícil de conquistar e manter.

Confesso que para mim a leitura não foi como um todo fácil. Eu me vi em muitos questionamentos da Will, pois assim como a personagem eu tento me aceitar como sou, e tal qual a protagonista às vezes fraquejo. Foi difícil ler muitos trechos em que ela escancarava suas neuroses de maneira tão aberta, ou momentos em que falava dos seus medos – que também são meus – mas que não saem de mim com tanta facilidade como aconteceu com ela.

Em contrapartida, ler Dumplin e entrar em contato com uma história com a qual me identifiquei bastante foi também catártico. Porque se por um lado dói ler verdades, por outro essas mesmas verdades após ditas (ou lidas) em voz alta têm um poder libertador. A gente apreende o que é dito e após digerir a leitura percebe que se aceitar tal qual se é pode parecer um bicho de sete cabeças – e talvez o seja – mas é também uma atitude capaz de tirar um peso dos ombros.

Através de uma narrativa simples, fluida, cativante e cheia de representatividade, a gente embarca em uma jornada existencial repleta de música e purpurina. Esta história é daquele tipo que merece ser lida em qualquer momento e em qualquer lugar, e que de maneira muito despretensiosa, irônica e divertida acaba inquietando e transformando o coração de quem lê.

Talvez as gordas, as mancas, ou as gengivudas e dentuças não costumem vencer concursos de beleza. Talvez não seja a norma, mas o único jeito de mudar isso é marcando presença. Porque ninguém vai nos dar nada de bandeja.

 


Livro: Dumplin’
Autora: Julie Murphy
Lançamento: 2017
Editora: Valentina
Páginas: 335
Sinopse: Especialmente para os fãs de John Green e Rainbow Rowell, apresentamos uma destemida heroína e sua inesquecível história sobre empoderamento feminino, bullying, relação mãe e filha, e a busca da autoaceitação. Sob um céu estrelado e ao som de Dolly Parton, questões como o primeiro beijo, a melhor amiga, a perda de alguém que amamos demais e “estou acima do peso e ninguém tem nada com isso” fazem de Dumplin’ um sucesso que mexerá com o seu coração. Para sempre. Gorda assumida, Willowdean Dickson (apelidada de Dumplin’ pela mãe, uma ex-miss) convive bem com o próprio corpo. Na companhia da melhor amiga, Ellen, uma beldade tipicamente americana, as coisas sempre deram certo… até Will arrumar um emprego numa lanchonete de fast-food. Lá, ela conhece Bo, o Garoto da Escola Particular… e ele é tudo de bom. Will não fica surpresa quando se sente atraída por Bo. Mas leva um tremendo susto quando descobre que a atração é recíproca. Ao contrário do que se imaginava – a relação com Bo aumentaria ainda mais a sua autoestima –, Will começa a duvidar de si mesma e temer a reação dos colegas da escola. É então que decide recuperar a autoconfiança fazendo a coisa mais surreal que consegue imaginar: inscreve-se no Concurso Miss Jovem Flor do Texas – junto com três amigas totalmente fora do padrão –, para mostrar ao mundo que merece pisar naquele palco tanto quanto qualquer magricela.

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10 Comentários

  • Ludyanne Carvalho

    Aaaaah, preciso!
    Uma leitura super necessária para todas as garotas que estão nesta fase de questionar o que é real do que um padrão ridículo inventado por não sei quem.
    Já estou amando Will sem nem conhecê-la, e fico feliz por alguém gostar dela do jeito que ela é. Porque acho extremamente chato quando alguém se interessa por alguém só depois que a pessoa dá aquela melhorada. Gostar assim, sem enfeite… é lindo. E se gostar acima de tudo é essencial.
    Não enfrento os mesmos questionamentos que Will, mas sinto que tenho muito a aprender com este livro, pois não me encaixo no padrão garota bonita; mas devemos tirar o NÃO e o PADRÃO desta frase, pois todas somos bonitas da nossa própria maneira.
    E os quotes são belíssimos.
    Amei a resenha e indicação.
    Beijos

    21 de agosto de 2017 às 11:22 Responder
  • cristiane dornelas

    Achei muito legal essa personagem e como ela quebra os padrões que a gente está acostumado a ver e ainda melhor, joga na cara a realidade sem tentar enfeitar as coisas. Ela se aceita pelo que é e sabe que no fim do dia o que importa é a pessoa, não a aparência dela. Amei isso. Já ganhou minha atenção por essas coisas.
    E a trama parece tão bonita! Pelas coisas que fala e como isso impacta a gente. Amor, amadurecimento, aceitação…tem muito tema legal. Dói ler verdades mesmo, mas às vezes a gente precisa delas pra ver o que importa de verdade e como mudar uma forma de pensamento. Ajuda, acaba sendo algo que enriquece e faz vermos as coisas de um modo melhor.
    Parece um baita livro.

    21 de agosto de 2017 às 11:51 Responder
  • Lili Aragão

    Oi Krisna, eu gosto de histórias humanas e palpáveis, que permitem que o leitor se identifique e reflita sobre pontos que acontecem ou já aconteceram na vida e assim tô super interessada nesse livro. A protagonista parece ser inspiradora e achei a resenha linda e empolgada, é legal quando a história nos toca e fica na lembrança como um acontecimento bom 😉

    21 de agosto de 2017 às 14:54 Responder
  • Hérica Lima

    Eu quero muito ler esse livro, primeiro porque eu amo Rainbow Rowell e se está falando que os amantes dele irão gostar também do livro isso eu tenho certeza!
    Muito ruim a sociedade que tentam impor padrão, mas tipo todos são diferentes. Que graça teria se fossemos todos iguais? A beleza está na diferença das pessoas!
    É legal ler livros com pessoas mais reais, isso me deixa mais conectada do livro!
    E que capa linda!

    21 de agosto de 2017 às 19:44 Responder
  • Alison de Jesus

    Olá, além de aparentar ser super divertida, a escrita ácida da autora faz uma crítica aos padrões de beleza, dando espaço para que pessoas normais possam ascender. Beijos.

    22 de agosto de 2017 às 18:56 Responder
  • Raquel Costa

    Oieeee tudo bem?
    Acho que tive sentimentos parecidos com seu por esse livro né kkkkkk, pq ao mesmo tempo que entendia os dilemas dela eu ainda tenho dificuldades pra enfrentar os meus, eu em muitos momentos senti lendo sobre meus medos. Esse livro se tornou meu queridinho, meu livro de cabeceira, e estamos carentes de Livros como esse, onde a representatividade e o empoderamento estão presentes em cada página.
    Parabéns pela resenha.

    24 de agosto de 2017 às 17:27 Responder
  • Pamela Mendes

    Esse livro parece ser muito bom! Eu também estou interessada nele desde o lançamento. Eu também gosto bastante de livros com histórias diferentes assim, e gostei de saber que o livro entrou para os seus favoritos. Esse parece ser o tipo de livro que realmente nos faz refletir, e eu acho que vou amar ele, mesmo não sendo tão fácil de ler. E gostei de saber que a história é fluída e cativante. Espero gostar dele também =D
    Bjss ^^

    24 de agosto de 2017 às 21:32 Responder
  • Bruna Bento

    gordofobia e auto-estima sao temas que precisam muito ser debatidos e trazidos à tona. bem legal ver um livro com essa tematica 🙂
    mas vi um pessoal reclamando q nao gostou do livro pq a personagem se perde quando encontra o garoto etc etc. voce sentiu isso, que foi algo que atrapalhou voce curtir a historia?

    25 de agosto de 2017 às 22:53 Responder
  • Marta Izabel

    Oi, Krisna!!
    É tão bom quando os autores fogem das protagonistas estereotipadas e trás personagens mais fáceis de se encontrar no nosso dia-a-dia!! Adorei a Will que se aceita do jeito que é!! Gostei muito da ideia de dela participar de um Concurso Miss Jovem Flor do Texas e provar que toda mulher é bonita do seu jeito!!
    Bjoss

    31 de agosto de 2017 às 00:37 Responder
  • Isabela Carvalho

    Oii Krisna 😉
    Estou muito ansiosa para ler Dumplin, e sua resenha me deixou mais animada ainda haha
    Depois de todas as resenhas que já li, cheguei a conclusão de que vou adorar a Will. Ela parece ser uma personagem incrível, e que marca demais o leitor. E o livro parece daqueles que desperta fortes sentimentos, e aborda temas que precisamos falar sobre!
    Não conhecia a Julie Murphy antes desse livro, mas acredito que ela tem tudo para se tornar uma autora muito queridinha dos leitores. E soube que ela está escrevendo uma continuação, fiquei super feliz!
    Bjos

    31 de agosto de 2017 às 18:21 Responder
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