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Resenha – Diga Aos Lobos Que Estou em Casa

Publicado em 6 de setembro de 2017
- Editoras, Novo Conceito, Resenhas, Young Adult

LIVRO ESPECIALMENTE INDICADO PARA leitores que buscam sair do comum com leituras fortes, duras e questionadoras, que de forma poética e simples tentam desfragmentar um pensamento ou sentimento. Ideal para quebrar uma sequência de leituras que não parecem tão marcantes.

Vocês já viram como se faz um copo de vidro? Eu, particularmente, nunca fiz um, e no programa Ra-Tim-Bum, que passava na cultura e tinha um quadro musical que com “viu como se faz?” explicava os processos de criação de várias matérias, sempre parecia fácil demais produzi-lo, com aquelas máquinas enormes e rápidas.

Ao pegar um copo na mão, ver seu design e cor e espessura diversas, não vejo como possa ser simples produzi-lo. Deve ser difícil, demorado e trabalhoso. O que diverge completamente da facilidade com que podemos destrui-lo. Quebrá-lo. Não precisa de muito, na verdade. Em questão de segundos, uma mão estabanada pode deixar escapar o vidro escorregadio pelo sabão e pronto. A gravidade e a fragilidade do vidro fazem o resto.

E isso não é só com o vidro. Eu aposto que vocês já quebraram mais do que um copo. Podem ter destruído um prato, um fone de ouvido, um espelho, um celular, a lombada de um livro e tantas outras milhares de coisas. E tudo bem quanto a isso. O ser humano é, por si só e sua natureza, destrutivo.

Mas vocês já tentaram desconstruir um pensamento? Vocês já tentaram desmanchar um achismo, um conceito preconcebido, um ideal, um padrão? Já tiveram de desmontar um comportamento, uma personalidade, o que você é? É extremamente difícil. Não chega perto da facilidade de quebrar aquele copinho de vidro.

E não chega perto da facilidade de acharmos que sabemos de tudo.

AIDS. Só de ler a palavra, seu cérebro já jogou tudo o que você conhece sobre o assunto contra seus olhos. Você pode ter lembrado o fato de ela ser uma doença autoimune, pode ter lembrado de que é transferível pelo contato direto com sangue contaminado e pelas relações sexuais. Pode ter lembrado que sabemos quase tudo sobre ela, menos um dos fatores mais importantes: não conhecemos sua cura. Em Diga Aos Lobos Que Estou Em Casa (ou DALQEEC para encurtar), os personagens maravilhosamente escritos nos mostram que a AIDS não é só isso – e, ao mesmo tempo, mostram que a AIDS não é tudo isso.

Era possível que, sem a AIDS, eu nunca tivesse conhecido Finn ou Toby. Haveria um grande buraco cheio de nada no lugar de todas aquelas horas e todos aqueles dias passados com eles. Se eu pudesse viajar no tempo, seria altruísta o bastante para evitar que Finn pegasse AIDS? Mesmo se isso significasse que eu nunca o teria como amigo? Eu não sabia.

Nossa protagonista, June, se pega pensando – por incentivo de sua família, da sociedade pouco compreensiva de 1987 e de seu ressentimento – que alguém que passa AIDS para outra pessoa é um assassino. Que esta pessoa merece ir para cadeia por condenar outro sujeito a ter seu mesmo fim.

June tem quatorze anos e já tem de segurar em suas mãos a existência frágil de pessoas que ama; June tem quatorze anos e já se vê confusa com as regras da vida, com os porque sim excessivos e os por quê não em falta; June tem quatorze anos e já não sabe como pode viver o resto da sua vida sem Finn – seu padrinho, seu tio, sua própria deficiência imunológica adquirida; June tem quatorze anos e ainda não sabe quem é, mas já se vê pensando que a AIDS é a pior inimiga que ela poderia ter.

Meu coração está quebrado e amolecido, e sou comum de novo. Não tenho amigos na cidade. Nem mesmo um. Eu costumava pensar que talvez quisesse ser falcoeira e agora tenho certeza disso, porque preciso descobrir o segredo. Preciso descobrir como fazer as coisas sempre voltarem para mim, em vez de sempre irem embora voando.

É compreensível. Vocês podem entender o ponto de vista dela: como é que algo tão ruim que trará a morte pode fazer alguma coisa boa? Para ela, isso é impossível.

E é aí que a desconstrução entra. E são desconstruçÕES. Porque, apesar de seus poucos anos de vida e muitos ditames da sociedade, June começa a perceber que nada é tão preto no branco ou factual, cheio de verdades absolutas, para ser impossível. Não há amores impossíveis, por mais incompreensíveis e inacessíveis que possam parecer para nós. Não há sonhos inalcançáveis e metas impraticáveis. Não há só coisas ruins e nem só coisas boas. Há, na verdade, situações que são desconhecidas, que transcendem nossa depreensão. E há, acima de tudo, desconstruções que precisamos fazer.

Ao terminar este livro, nós podemos ver que a AIDS é fundamental para o enredo, mas não é o centro da história. Não. DALQEEC fala sobre o amor, sobre ser e sobre redescobrir verdades já escritas. Nas páginas dele nós podemos ver personagens que querem ACONTECER, sem a coação do impossível em seus planos. Podemos ver que a deficiência imunológica adquirida não é a AIDS, e sim a chance que damos a todos os males, descrenças e intempéries de nos infectar, de não deixarmos nós mesmos crescer, de deixarmos de acreditar, de nos deixarmos correr com as águas do tempo sem nadar no sentido contrário.

Diga Aos Lobos Que Eu Estou Em Casa pisa diretamente no que achamos mais concreto e destrói os conceitos que pensamos ser os mais verdadeiros possíveis. É um livro profundo, pesado e intenso, lindo de sua capa à quebras de capítulo e transições de tempo. É uma jóia rara que não se vê nem lê todo dia. É um livro que você lê sabendo que é um risco, pois ao terminá-lo, você não será mais o mesmo. É como avisar os lobos selvagens sobre sua localização exata – é como dizer a eles que você está em casa, e esperar o estrago ser feito.

E sim, é um estrago e tanto.

Mas é um estrago que vale a pena. É um estrago que abre nossa visão, muda nossa ótica.

É um estrago necessário.


Livro: Diga aos lobos que estou em casa
Autora: Carol Rifka Brunt
Lançamento: 2014
Editora: Novo Conceito
Páginas: 464
Sinopse: 1987. Só existe uma pessoa no mundo inteiro que compreende June Elbus, de 14 anos. Essa pessoa é o seu tio, o renomado pintor Finn Weiss. Tímida na escola, vivendo uma relação distante com a irmã mais velha, June só se sente “ela mesma” na companhia de Finn; ele é seu padrinho, seu confidente e seu melhor amigo. Quando o tio morre precocemente de uma doença sobre a qual a mãe de June prefere não falar, o mundo da garota desaba. Porém, a morte de Finn traz uma surpresa para a vida de June – alguém que a ajudará a curar a sua dor e a reavaliar o que ela pensa saber sobre Finn, sobre sua família e sobre si mesma. No funeral, June observa um homem desconhecido que não tem coragem de se juntar aos familiares de Finn. Dias depois, ela recebe um pacote pelo correio. Dentro dele há um lindo bule que pertenceu a seu tio e um bilhete de Toby, o homem que apareceu no funeral, pedindo uma oportunidade para encontrá-la. À medida que os dois se aproximam, June descobre que não é a única que tem saudades de Finn. Se ela conseguir confiar realmente no inesperado novo amigo, ele poderá se tornar a pessoa mais importante do mundo para June. “Diga Aos Lobos Que Estou Em Casa” é uma história sensível que fala de amadurecimento, perda do amor e reencontro, um retrato inesquecível sobre a maneira como a compaixão pode nos reconstruir.

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17 Comentários

  • Ludyanne Carvalho

    👏👏👏👏👏👏👏
    Uau! Vocês. Arrasam. Nas. Resenhas.
    Calma, preciso me recompor antes de qualquer comentário…
    Nunca tinha pensado dessa forma; sobre quebrar um copo ou outras coisas. É tão fácil, vivo quebrando copos. Mas quebrar, desconstruir um pensamento, um achismo é tão complicado. E às vezes não é um achismo nosso, e sim um achismo que nos foi dado desde sempre…
    Quando li “AIDS” logo pensei na parte mais assustadora da palavra… Somos tão pequenos perante esse universo!
    Acredito que é necessário um certo preparo emocional para se jogar nessa leitura, e também acredito que é uma leitura necessária para todos.
    June é tão nova e terá muito a nos ensinar, já me apeguei a personagem.
    Obrigada por esta resenha. Amei!
    É uma resenha poética… E amo leituras assim.
    Beijos

    6 de setembro de 2017 às 21:18 Responder
    • Layla Magalhães

      Ludy!!! Tô querendo te sequestrar por esses comentários magníficos que você faz!

      A June tem, de fato, muito a ensinar. Li esse livro há algum tempo e desde então tenho um carinho imenso por ele e pelas personagens, e aprendi tanto com ele que chega a doer meu coração.

      Eu que te agradeço por me deixar saber sua opinião, e espero que você possa ler esse livro e amar também.

      Beijos grandes, L, e tô pensando quais outras resenhas poéticas, além dessa e de Wintersong, posso trazer para você!

      7 de setembro de 2017 às 19:59 Responder
      • Ludyanne Carvalho

        Kkkkkkk se tiver uma biblioteca encantadora, aceito o sequestro.

        Já acrescentei na minha lista; quero muito conhecer essa história e seus ensinamentos.

        Aaaah, estarei esperando por estas resenhas. Esse blog é maravilhoso; adquiri A química que há entre nós e O amor nos tempos do ouro depois das resenhas que li sobre eles aqui. Fora os que acrescentei na minha lista.

        Beijos

        10 de setembro de 2017 às 13:42 Responder
  • Lili Aragão

    OI Layla, tua resenha tá… uau!!!… super sensível e bem escrita me prendeu na introdução falando sobre construção e desconstrução e me levou a pensar. O livro tem uma capa bem diferente assim como o título, que imagino que vá ter algum significado pra ele na história e parece apresentar personagens marcante e tratar não só de AIDS mas da vida e do que pensamos saber. Fiquei super curiosa sobre a história e amei a resenha, parabéns!

    7 de setembro de 2017 às 10:03 Responder
    • Layla Magalhães

      Lili, você é de fato um amor!

      Ele mostra de fato que temos muito o que saber e aprender sobre todas as coisas e desconstruções da vida, e é uma leitura inacreditável.

      Obrigada por deixar seu recadinho!

      7 de setembro de 2017 às 20:01 Responder
  • Isabelle Ribeiro

    Meu Deus!! Layla, que resenha maravilhosa!
    Estava com saudades de ver resenhas assim. Sempre que venho aqui me surpreendo! Coisa linda de se ver!
    Mas vamos lá, após ler essa resenha posso concluir que esse livro precisa estar na minha listinha! É uma leitura marcante, não aquela que quando terminamos ficamos envolvidas com os personagens ou marcadas pela história que nos foi contada.
    Mas sim por ser uma história que nos muda, que nos faz refletir… Parece até que nos tornamos íntimos dos personagens e vivemos tudo aquilo com eles. É algo que nos modifica e beneficia.
    Parabéns pela resenha, intensa e incentivadora!
    Beijos!

    10 de setembro de 2017 às 14:59 Responder
    • Layla Magalhães

      Obrigada, obrigada, obrigada, Isa!

      A leitura é extremamente modificadora e beneficiadora. Apesar de focar mais na AIDS e nos pré-conceitos nesse quesito, é uma reflexão cabível para tudo aquilo que achamos certo e concreto. É maravilhoso.

      Fico muuuuito feliz por ele ter entrado na listinha e espero, de verdade, que você leia e ame como eu amei.

      Beijos grandes e obrigada novamente.

      11 de setembro de 2017 às 16:07 Responder
  • Pamela Mendes

    Nossa, eu achava que esse era um livro de fantasia hahaha. Fiquei curiosa para ler esse livro agora, ele parece ser um livro bem emocionante, principalmente por contar a história de um adolescente que já está vendo alguém próximo a ela sofrer. E já deu pra perceber que esse livro passa uma mensagem muito importante, e com certeza vale muito a pena ser lido. Já entrou para minha lista =D
    Bjss ^^

    15 de setembro de 2017 às 21:54 Responder
    • Layla Magalhães

      Que bom que você se interessou, P! Eu torço para que você leia e que adore a mensagem boa e essencial que ele passa.

      A capa faz pensar que é uma fantasia, creio. E ela é muito linda, ai ai.

      Beijos e obrigada pelo comentário!

      20 de setembro de 2017 às 12:07 Responder
  • Hérica Lima

    Que resenha maravilhosa. Quase chorei e tive um mini ataque!
    Que livor mais lindo e sensível. Acho que vou chorar muito e refletir sobre tudo que o livro tem para nos proporcionar.
    A capa é muito linda e meu Deus preciso comprar o livro imediatamente.
    Beijoss.

    16 de setembro de 2017 às 12:17 Responder
    • Layla Magalhães

      Obrigadaaaaaaa H! Fico feliz que você tenha gostado.

      O livro é mesmo muito lindo e sensível. Eu chorei muito quando li, de ficar catarrenta e com o rímel borrado haha não é uma imagem muito bonita de se ver.

      Leia mesmo porque vale a pena demais!

      Beijos e obrigada pelo comentário.

      20 de setembro de 2017 às 12:09 Responder
  • Franciele Débora

    Olá, tudo bem?
    Nossa, conheci o blog essa semana e posso dizer que é uns dos melhores eu já vi. Sempre com resenha tão magnifica, sempre bem detalhada e muito empolgante; adorei cada palavra. O que dizer desse livro? Não sei, estou sem palavras, mas posso dizer que achei um livro cheio de carga emotiva e lindo por sinal.
    Adicionei na minha lista e espero lê-lo em breve!
    Abraços e beijos.

    17 de setembro de 2017 às 22:09 Responder
    • Layla Magalhães

      Um dos melhores blogs sem dúvida, Fran! Eu cheguei como resenhista há pouco e posso dizer que ele é um entre mil, de tão especial, e a Kris e a Thais arrasam demais por aqui.

      Esse livro é cheio de carga emotiva mesmo, e é muito reflexivo. Não é uma leitura fácil, mas é uma leitura enriquecedora. Espero que, quando você ler, ame tanto quanto eu.

      Beijos grandes, lindona.

      20 de setembro de 2017 às 12:12 Responder
  • Marta Izabel

    Oi, Layla!!
    Nossa que resenha mais maravilhosa!! Não sabia que esse livro mexia com um tema tão forte como esse!! Amei a premissa dele e fiquei apaixonada pela por toda a estória, e também por essa protagonista tão jovem que é a June Elbus e que tão cedo vai enfrentar um turbilhão de coisa na sua vida!!! Sem dúvida vou querer adicionar na minha lista enorme de desejados!!
    Bjoss

    23 de setembro de 2017 às 23:36 Responder
    • Layla Magalhães

      Obrigada, Marta, querida!

      A June é única, realmente uma em um milhão, e todo o aprendizado que ela consegue enquanto passa por esses turbilhões é de cair o queixo.

      Adicione mesmo, na lista e no coração, porque é um livro precioso.

      Beijos grandes e espero seu comentário caso você leia, viu?

      26 de setembro de 2017 às 20:15 Responder
  • rudynalva

    Layla!
    Já tive oportunidade de ler esse livro e confesso que no início fiquei um pouco confusa e até o livro engrenar, o que não demorou muito, imaginei como o autor iria desenvolver um assunto tão sério e real, tendo como protagonista uma adolescente.
    Mas é bem como falou, o livro é tão próximo a realidade que acabamos por nos envolver e nem percebemos o tamanho do livro.
    Desejo uma semana maravilhoso!!
    “O primeiro passo para a cura é saber qual é a doença.” (Provérbio Latino)
    Cheirinhos
    Rudy
    TOP COMENTARISTA DE SETEMBRO 3 livros, 3 ganhadores, participem.

    24 de setembro de 2017 às 21:43 Responder
    • Layla Magalhães

      É exatamente isso, Rudy! É um livro muito especial que merece mais atenção dos leitores por aí. Fico feliz em saber que você gostou da leitura também.

      Beijos e boa semana para você também.

      26 de setembro de 2017 às 20:16 Responder

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