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Resenha – Caixa de Pássaros

Publicado em 1 de dezembro de 2017
- Editoras, Intrínseca, Resenhas, Suspense, Thriller

LIVRO ESPECIALMENTE INDICADO aos fãs de suspense e terror e que estão preparados para, durante a leitura, ouvir barulhos estranhos no meio da noite e achar que está sendo observado. Deixando meu desabafo de noites mal dormidas de lado, Caixa de Pássaros é mais que recomendado se você gosta de thrillers e reflexões na calada da madruga.

O medo pode ser contemplado com diversos olhares. No dicionário encontrei vieses que diziam que medo é o estado emocional provocado pela consciência que se tem diante do perigo; que descreviam-no como um sentimento de ansiedade sem razão fundamentada, como o medo de tomar manga com leite ou de deixar a sola do chinelo pra cima; há também o sentido de medo por extensão, que complementa um comportamento repleto de covardia, como fugir por estar com medo de algo ou alguém.

Eu provavelmente não preciso explicar como é o medo para você. Você, que está lendo essa resenha, deve temer alguma coisa. Temer alguém. Algo. Cobra, lagartixa, seu pai, seu tio desbaratinado, a solidão, a morte. Você, como pessoa humana que é, teme algo. Algo que conhece. Algo que você sabe o que é. Algo que você sabe como se parece e como ataca; algo que você sabe que tem ou não uma cura, se há ou não modos de sobreviver.

O que te dá medo? Desastres naturais? Forças psicológicas? Seres que caminham no nosso mundo ou aqueles que caminham só em nossas mentes? Não sei qual é sua fobia, caro leitor, mas quero que você foque nela. Visualize-a em sua mente, ouça-a, sinta-a, prove-a. Eu, por exemplo, morro de medo de aranha. Daquelas perninhas peludas, de sua agilidade lânguida e de sua frieza animal na teia. Fico apavorada com seus pulos ligeiros e na altura que chegam. Sinto os músculos espasmarem e as mãos fechadas em punhos só de imaginar uma aranha, por menor que seja, andando pelo meu corpo, mesmo sabendo que não há nenhuma, mesmo sendo racional na irracionalidade. E, ainda assim, eu tenho medo.

Volto a dizer que não sei o que lhe traz pânico, mas ressalto que esse livro é medo em cima de terror e susto e todos os pavores somados, porque pior do que se temer alguma coisa que se conhece, é temer algo do qual somos ignorantes, que não sabemos como é, o que é, o que faz, porquê faz, como vive, e se vive de fato. Porque, para conhecer o causador desse grande terror, você deve abrir os olhos para vê-lo.

Uma vez, no dentista que eu frequentava, vi um quadro tão lindo que não conseguia parar de olhá-lo. Estava hipnotizada pelas suas cores e formas, pelos tons de verde do jardim e as pinceladas amarelas dos girassóis. Vi esse quadro há uns cinco, seis anos atrás, e nunca mais esqueci dele. Ele ficara em meus pensamentos não por ser uma grande obra de arte, nem mesmo por ser transcendental em sua composição como uma obra de Van Gogh. Ele era um quadro simples, de cena comum, sem nada de muito extraordinário. Contudo, o ponto principal é que ele me tocou. Algo lá no meu íntimo fez conexão com a pintura e ela ficou comigo desde então.

Em Caixa de Pássaros não há pinturas para se ficar encantada. Há criaturas misteriosas. E quando você dá aquela pequena parte de você ao ceder e abrir os olhos para encará-las de uma vez por todas, elas fazem uma barganha. O conhecimento de como elas são em troca da sua sanidade. É como a minha relação com o quadro: eu o carrego comigo, mas parece-me que uma parte de mim, de quem sou, aquela emoção que senti e os momentos que desfrutei ao encará-lo estão com ele.

Será que sabem o que fazem? Será que querem fazer o que fazem?
Naquele instante, ela sente que o mundo inteiro está morto. Sente como se aquele barco a remo fosse o único lugar onde há vida humana. O resto do mundo se espalha a partir da ponta do barco, um mundo vazio, florescendo desabitado a cada remada.
São monstros, pensa Malorie. Mas ela sabe que são mais do que isso. São o infinito.

O conhecimento em troca de uma parte de sua alma. Algumas coisas têm a capacidade de fazer isso com você. Uma música, um quadro, um filme… um livro. E, em Caixa de Pássaros, o curioso é que o contrário acontece. Você quer negociar, dar o que for preciso, ceder uma parte de quem você é para saber o que são as criaturas e porque existem e fazem o que fazem. Você mais do que quer, você PRECISA saber. Mas num mundo onde outrora era ver para crer, hoje os abençoados são aqueles que têm a mais densa cegueira. E sábios são aqueles que escutam, acima de tudo.

SÓ QUE.

Só que… a vida é falha e inesperada. Planejar o amanhã é pedir para ser decepcionado com o falhar de seus planos. Os olhos não veem e o medo não hesita, e é por isso que pergunto-lhes o mesmo que Malorie se questionou: QUÃO LONGE UMA PESSOA PODE OUVIR? A audição, como um dos órgãos dos sentidos mais importantes, pode dissimilar a verdade da mentira, a presa do predador, o certo do errado? A audição pode responder se o medo que sentimos das criaturas é aquele psicológico ou se é aquele por extensão ou por razão não fundamentada? A audição seria capaz de distinguir criaturas reais que causam a loucura ou, mais importante que isso, poderia ver que não há criatura nenhuma, e sim o excesso de nosso medo?

Seja lá o que for, nossas mentes não conseguem entender. Pelo que parece, as criaturas são como o infinito. Algo complexo demais para nossa cabeça. Sabe?

Indo além do suspense e da forma planejada dos thrillers psicológicos, Caixa de Pássaros vai além do quero-deixar-você-com-medo-até-não-conseguir-dormir. Não são só as criaturas que lhe deixarão com medo, e sim a gama de questões morais que são levantadas ao longo da história. Com milhares de membros da espécie ou apenas cinco, onde há humanidade há vísceras e entranhas e tumores e cânceres – porque onde há humanidade, há emoções. E onde há emoções, medo, amor, raiva… há desonestidade. Há ganância. Há egoísmo. Porque, como George Orwell ressaltara muito bem em A Revolução dos bichos, o homem é o mal da sociedade e a sociedade é o mal do homem. E isso nos faz pensar… Neste mundo, há algum mal que não fora os homens que implantaram? E nos homens, há algum mal que não fora o mundo que implantou?

Josh Malerman utilizou a seguinte frase: “Fazemos isso com nós mesmos fazemos isso com nós mesmos, FAZEMOS ISSO com NÓS MESMOS. Em outras palavras (guarde isto!): O HOMEM É A CRIATURA QUE ELE TEME.” E ficção, contos de fadas, abobrinha ou fatos reais, essa não é a verdade mais dolorosa com a qual você já se deparou?

Não há nada que possa descrever a sensação que tive durante a leitura deste livro. Coceira, medo, ansiedade, fadiga… fora quase como quando alguém começa a falar de piolhos e pulgas perto de você. Sobe aquela sensação ruim pela coluna e você se encolhe e se afasta e passa a mão no rosto e nos braços e na cabeça, como se querendo tirá-la de você, como se certificando de que não é real, mesmo você sabendo de fato que não é? Como se certificando que não há piolhos e pulgas em você, mesmo sabendo de fato que não há? Caixa de Pássaros é como um desses parasitas. Ele gruda em você, se alimenta do que você provê – sangue, imaginação, medo, ansiedade – e te deixa incomodada, pouco à vontade, desagradável em sua própria pele. Esse livro é um cinco estrelas e ao mesmo tempo um três: cinco por não responder minhas perguntas e deixar-me curiosa e três por NÃO RESPONDER MINHAS PERGUNTAS E DEIXAR-ME CURIOSA.

O sumo que os piolhos metafóricos deixaram são piores que as lêndeas. Eles amargam a boca e deixam a cabeça bagunçada pós coceira. A humanidade é o parasita e o hospedeiro, o bem e o mal, o piolho e o escabin. E assim como aposto que vocês coçaram a cabeça praticamente todas as vezes em que eu citara esse insetinho que se esconde nas nossas madeixas, garanto que, numa reflexão mais profunda, aguçando os ouvidos e fechando os olhos, vocês chegarão às mesmas indagações que eu cheguei. Verão de forma mais profunda do que com os olhos que assistimos impotentes os homens enlouquecerem e matarem a política, matarem a filosofia, as artes, os direitos humanos, os membros da própria espécie. Verão que o mal do homem é o homem, e o que ele teme também é o homem. Verão Caixa de Pássaros sair do ficcional e ir pro real, e estarão pasmos com a importância que damos àquilo a que vemos e ouvimos e achamos. Verão os pássaros, ainda soltos nas copas das árvores, gritarem por socorro. Gritarem por ajuda. Gritarem para nós alguns avisos. Só que aqui já somos cegos, surdos, mudos. E aqui ser cego, mudo e surdo de nada nos ajuda. Porque nós somos as criaturas. Somos nós que assustamos os pássaros. Somos nós que fazemos com que nos matemos e somos nós que vamos além de nossa própria compreensão. E portanto (e parafraseando a Malorie), como podemos esperar que nossos filhos sonhem em chegar às estrelas se eles não podem erguer a cabeça e olhar para elas, não sem enxergá-las de fato?

Num mundo onde não podemos abrir os olhos, uma venda não é tudo que temos para nos defender?

Se tememos algo real ou algo inexistente não é o importante. O importante é que vivamos sabendo das constelações que estão presentes e que podem nos enlouquecer tanto se olharmos muito como se deixarmos de ver. Sinta, ouça, prove. Vá além da superficialidade, qualquer que seja a situação. Seja mais do que o piolho-sugador-de-sangue, seja as mitocôndrias e os glóbulos vermelhos. Não se contente com meias-verdades nem verdades absolutas. Questione. Não se cegue – NÃO SE DEIXE CEGAR. Chegará um tempo em que não haverá pássaros trancados em caixas para nos alertar do perigo. Chegará um tempo em que só os mais aptos em ouvir e distinguir sobreviverão e a loucura será o menor dos nossos problemas. Estaremos presos em ignorância e seguindo por vias nubladas para lugar nenhum. E essa é a maior lição que Caixa de Pássaros pode dar.

Ela imagina a casa como se fosse uma grande caixa. Quer sair daquela caixa. Tom e Jules, mesmo do lado de fora, ainda estão naquela caixa. O planeta inteiro está trancado nela. O mundo está confinado à mesma caixa de papelão que abriga os pássaros do lado de fora. Malorie entende que Tom está procurando uma maneira de abrir a tampa. Busca uma saída. Mas ela se pergunta se não há outra tampa acima daquela, e depois mais uma.
Encaixotados, pensa. Para sempre.


Título: Caixa de Pássaros
Autor: Josh Malerman
Lançamento: 2015
Editora: Intrínseca
Páginas: 272
Sinopse: Romance de estreia de Josh Malerman, Caixa de pássaros é um thriller psicológico tenso e aterrorizante, que explora a essência do medo. Uma história que vai deixar o leitor completamente sem fôlego mesmo depois de terminar de ler.
Basta uma olhadela para desencadear um impulso violento e incontrolável que acabará em suicídio. Ninguém é imune e ninguém sabe o que provoca essa reação nas pessoas. Cinco anos depois do surto ter começado, restaram poucos sobreviventes, entre eles Malorie e dois filhos pequenos. Ela sonha em fugir para um local onde a família possa ficar em segurança, mas a viagem que tem pela frente é assustadora: uma decisão errada e eles morrerão.

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2 Comentários

  • Ludyanne Carvalho

    Sempre termino suas resenhas com um suspiro e um “UAAAU”!

    Mas preciso dizer que não farei a leitura de Caixa de pássaros nem se me pagassem, ou se me oferecessem aquela biblioteca maravilhosa da Alemanha.

    Nós, seres humanos, temos medo. E isso é totalmente sadio, é necessário antes de uma grande decisão; exceto, quando o medo é exagerado. E esse é o meu medo. Tenho medo do existente e do inexistente, tenho medo de permanecer sentindo medo, tenho medo do medo. E uma leitura que me desperte medo não é algo que eu procure.

    A sociedade tem meios de criar um mundo melhor, nós podemos fazer com que seja mais belo, mais encantador, mais simples. Mas quando vejo o quanto nossas mãos, nossas palavras destroem esse mundo, sinto medo. Estamos no caminho errado.

    O que eu gostei muito das reflexões que você nos trouxe, me parece uma leitura forte, tensa.

    Layla 👏👏👏👏

    Beijos

    1 de dezembro de 2017 às 12:14 Responder
  • Lili Aragão

    Oi Layla, você tá sempre arrasando nas resenhas e mesmo quando o livro não é pra mim, pois um livro que pode ser definido como “medo em cima de terror e susto e todos os pavores somados” haha definitivamente não é para essa leitora medrosa rsrs, mas é muito bom ler os textos que você produz dos livros e te parabenizo por isso, mesmo não sendo uma leitura que me chame, fiquei intrigada com o conteúdo do livro e talvez mais a frente quando eu tiver mais corajosa eu me arrisque na leitura 😉

    1 de dezembro de 2017 às 15:23 Responder
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