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Resenha – Barba ensopada de sangue

Publicado em 13 de setembro de 2017
- Cia das letras, Nacional, Resenhas

LIVRO ESPECIALMENTE INDICADO PARA quem gosta de histórias realistas e textos descritivos, literatura nacional contemporânea. Para ler naquele momento que você procura uma história real, com a qual possa se identificar.

A resenha de hoje é do livro nacional Barba ensopada de sangue, do Daniel Galera  e publicado pela Companhia das Letras. Este foi o segundo livro do Galera que eu li e só posso dizer que mergulhei completamente nesta história, que é narrada de uma maneira totalmente diferente do que estou acostumada a ler. Vem saber mais sobre esta leitura.

A obra conta a história de um professor de educação física que acabou de perder o pai de maneira trágica. Pouco tempo antes de morrer seu pai lhe contou que seu avô paterno, quem ele nem chegou a conhecer, havia sido assassinado e não simplesmente sumido no mundo como seu pai sempre contou que tinha acontecido. Seu avô, Gaudério, morava em Garopaba, cidade no litoral de Santa Catarina, quando foi assassinado. Além do sofrimento pela perda repentina do pai, nosso protagonista, de quem não sabemos o nome durante todo o livro, também está passando por um momento muito conturbado na sua vida pessoal.

Movido pelo desejo de saber mais sobre o seu avô e pela vontade de se afastar de sua família ele decide se mudar  de Porto Alegre para Garopaba. Mas assim que chega na nova cidade começa a perceber que  não será tão fácil conseguir informações sobre o seu avô. Todas as vezes que pergunta para alguém sobre Gaudério os moradores fingem não saber e desconversam. Ele chega a ser aconselhado a deixar de fazer perguntas.

Todos com quem abordou o assunto da morte do avô passaram a ignorá-lo. Alguns o acompanhavam com olhares hostis quando passa pelas ruas da vila histórica e outros o cumprimentam com simpatia que lhe parece exagerada. Às vezes suspeita que está paranoico.

Se não bastasse toda essa situação, nosso protagonista ainda sofre de uma condição neurológica que dificulta a sua interação social. Mas ele não está sozinho, pode contar sempre com Beta, uma pastora australiana que vivia com seu pai e agora é sua fiel companheira. Enquanto ele revira o passado em busca de informações sobre o avô, passa a conhecer melhor a si próprio. Durante a leitura acompanhamos sua jornada de auto-descoberta.

Como eu disse, esse foi meu segundo contato com a obra do Daniel Galera,  já conhecia Meia-noite e vinte, seu livro mais recente. Uma das características que mais chamou minha atenção na escrita do autor em Barba ensopada de sangue, foi o modo de construção dos diálogos, que não são iniciados com travessão ou aspas. O texto é corrido e muitas vezes temos a fala de vários personagens em um mesmo parágrafo e essa construção ajuda a dar ritmo ao diálogo. No início isso pode causar certo desconforto, mas conforme a leitura avança nos habituamos com essa forma de apresentação. Outro fato que me chamou a atenção foram os fragmentos de conversas e bilhetes que aparecem ao longo do texto.

Eu adoro textos descritivos, sempre me sinto mais próxima da história. Daniel soube construir de forma brilhante todos os cenários de modo que eu consegui me transportar para Garopaba durante a leitura. Participei de um evento no Sesc Campinas no mês passado com o Daniel  e ele contou que estava morando em Garopaba enquanto escrevia o livro. Acredito que isso contribuiu muito para a riqueza de detalhes.

O que eu fiz de errado eu carrego comigo. Nada some porque a gente decide, porque a gente quer. Ninguém pode me tirar o mal que eu fiz pros outros. A gente precisa disso pra ser uma pessoa melhor.

O livro aborda várias questões presentes no nosso cotidiano. Galera retratou pessoas que poderiam ser reais, com todas as suas angústias e questionamentos, vivendo situações que muito factíveis. Ao longo do texto são abordadas desde questões religiosas e políticas, até a diferença entre o modo de vida nos grandes centros urbanos e nas pequenas cidades. Adorei como a condição neurológica do protagonista foi usada na trama.

Os personagens secundários contribuem de forma importantíssima para a construção da história e ajudam nosso protagonista em sua jornada, e  achei linda a relação que ele desenvolveu com Beta. Ele se dedicou de corpo e alma para cuidar dela, nunca desistindo mesmo diante de grandes dificuldades. Uma frase que o pai do protagonista disse logo no início do livro com relação a Beta me marcou profundamente.

Os cachorros abdicam pra sempre de parte do instinto para viver com as pessoas e nunca mais podem recuperá-lo por completo. Um cachorro fiel é um animal aleijado. É um pacto que não pode ser desfeito por nós. O cachorro pode desfazê-lo, embora seja raro. Mas o homem não tem esse direito, dizia meu pai.

Também foram inseridas muitas referências de psicologia e filosofia, destaquei vários trechos que me marcaram bastante. Alguns preceitos do budismo também são bastante explorados ao longo do texto, e fazem parte do processo de autodescoberta do nosso protagonista. O embate entre a corrente de pensamento do determinismo e do livre-arbítrio também fica evidente em vários trechos, e em alguns momentos o protagonista se mostra grande adepto do determinismo.

Na opinião dele a vida era mesmo um pouco desse jeito. Já se sabe em grande medida como as coisas vão ser. Para cada surpresa há dezenas ou centenas de confirmações do que já era mais ou menos esperado ou intuído e toda essa previsibilidade tende a passar percebida.

Adorei como consegui entender alguns fatos e situações somente depois que terminei de ler livro. Durante a leitura acabamos deixando algumas coisas passarem, mas nada na história é por acaso. Sabe quando você termina um livro é pensa, ‘nossa era isso então’, foi assim que fiquei. A trama de Barba ensopada de sangue foi muito bem costurada. Adoro quando isso acontece, não gosto de pontas soltas. Acabei até relendo alguns trechos.

Quem se interessou pelo trabalho da Daniel Galera não deixe de conhecer os outros livros publicados por ele além do Meia-noite e vinte que já citei. Ele também publicou: Mãos de cavalo (2006); Até o dia em que o cão morreu (2007), que foi adaptado para o cinema sob o título Cão sem dono; Cordilheira (2008), primeiro livro da coleção Amores Expressos em que dezessete autores brasileiros visitaram diversas cidades do mundo para escrever; e Cachalote (2010), uma HQ em parceria com Rafael Coutinho. Uma curiosidade, o autor também é tradutor e foi responsável pela adaptação de textos de David Mitchell, Jack London e David Foster Wallace. Aliás, Daniel Galera foi um dos primeiros incentivadores à tradução do trabalho do David Foster Wallace aqui no Brasil.

Espero que tenham gostado da resenha e de saber um pouco mais sobre o trabalho de um autor nacional contemporâneo. Acredito que nós leitores podemos e devemos ajudar a valorizar cada vez mais a literatura nacional. Até a próxima resenha, beijos!


Título: Barba ensopada de sangue
Autor: Daniel Galera
Lançamento: 2012
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 424
Sinopse: Um professor de educação física busca refúgio em Garopaba, um pequeno balneário de Santa Catarina, após a morte do pai. O protagonista (cujo nome não se conhece) se afasta da relação conturbada com os outros membros da família e mergulha em um isolamento geográfico e psicológico. Ao mesmo tempo, ele empreende a busca pela verdade no caso da morte do avô, Gaudério, que teria sido assassinado décadas antes na mesma Garopaba, na época apenas uma vila de pescadores. Sempre acompanhado por Beta, cadela do falecido pai, o professor mergulha na investigação sobre o misterioso Gaudério, esquadrinhando as lacunas do pouco que lhe é revelado, a contragosto, pelos moradores mais antigos da cidade. Portador de uma condição neurológica congênita que o obriga a interagir com as outras pessoas de um modo peculiar, o professor estabelece relações com alguns moradores – uma garçonete e seu filho pequeno, os alunos da natação, um budista histriônico, a secretária de uma agência turística de passeios. Aos poucos, ele vai reunindo as peças que talvez lhe permitirão entender melhor a própria história. É também com lacunas e peças aparentemente díspares que Galera constrói sua narrativa alternando descrições sutis e detalhamento com diálogos ágeis e de rara verossimilhança, que dão vida a um elenco de personagens. ‘Barba Ensopada de Sangue’ se propõe a resgatar e levar às últimas consequências temas e conflitos das obras anteriores do autor tais como – a construção da identidade e, nesse processo, as dificuldades que se enfrenta para entender e reconhecer os outros; a necessidade inconfessa de uma reparação talvez inviável; a busca pela unidade entre mente e corpo; o consolo afetivo que o contato com a natureza e os animais é capaz de proporcionar; os diversos tipos de violência que podem irromper em meio a uma existência domesticada.

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12 Comentários

  • Lili Aragão

    Oi Thais, eu gostei sim da resenha e de saber um pouco mais sobre o trabalho desse autor nacional. Achei a história bem diferente e já começa se destacando pelo título, e pelos títulos dos outros livros que você citou deu pra perceber que o autor gosta de títulos diferentes 🙂
    Fiquei curiosa pra saber como o autor abordou a condição neurológica que o protagonista tem e pra ver se ele consegue desvendar o mistério da morte do avó e imagino que as interações com o cachorro sejam muito boas 😉 Ótima resenha, achei interessante apesar dessa não ser uma leitura que faria por agora.

    13 de setembro de 2017 às 14:08 Responder
    • Thaís Bueno

      Oi Lili!

      Que bom que você gostou da resenha. É sempre muito bom poder conhecer o trabalho de autores nacionais.

      Beijos,

      21 de setembro de 2017 às 14:20 Responder
  • Ludyanne Carvalho

    Oi, Thais.
    Gostei bastante da resenha, apesar de não ser meu tipo de leitura. Mas realmente é sempre bom conhecer trabalhos nacionais. Precisamos valorizar nossa literatura.
    A capa é espetacular, esse tom de vermelho está muito bonito e amei o formato das letras.
    Como assim não fala o nome do personagem principal? Eu ficaria mega curiosa. Mas achei interessante ele ter ido em busca do que aconteceu com seu avô; ele busca verdades e provavelmente encontra a si mesmo.
    Não sei se me adaptaria ao tipo de narração que Daniel criou, me parece um pouco confuso.
    Mas pra quem gosta de livros nesse estilo, é uma ótima indicação.

    Beijos

    13 de setembro de 2017 às 14:53 Responder
    • Thaís Bueno

      Oi Ludyanne!

      Como eu disse na resenha no começo é um pouco difícil acompanhar o estilo de narração mas me acostumei rapidamente. Gostei da experiência, acho muito estimulante ler algo que fuja do que estou habituada. Mesmo não sendo seu estilo de livro preferido acredito que seja válida a tentativa de leitura, você pode se surpreender.

      Beijos,

      21 de setembro de 2017 às 14:23 Responder
  • Hérica Lima

    Livro bem diferente mesmo. Já tinha visto ele no skoob, mas confesso que ele não me chamou a atenção de começo.
    O título é bem diferente e a história em si parece ser tbm! Adorei a sua resenha, bem explicativa.
    E adorei saber que é de um autor nacional.

    15 de setembro de 2017 às 19:43 Responder
    • Thaís Bueno

      Oi Herica!

      Também fico muito feliz em conhecer trabalho de novos autores nacionais. Temos ótimos autores e autoras por aqui e devemos valorizar cada vez mais o trabalho deles.

      Beijos,

      21 de setembro de 2017 às 14:24 Responder
  • Franciele Débora

    Olá! Tudo bem?
    Achei bem intrigante essa parte do livro que não tem fala e sim fala de vários personagens em um mesmo parágrafo, acho que ao ler esse livro não me adaptar. Mas gostei muito da premissa, do enredo e do jeito que o autor construiu a trama. Acho que vou dar uma chance e ver no que dá.
    Adorei sua resenha, como sempre bem detalhada.
    Beijos.

    18 de setembro de 2017 às 11:10 Responder
    • Thaís Bueno

      Oi Franciele!

      Isso mesmo, dê uma chance para esse livro. Você pode se surpreender. Fico muito feliz que você tenha gostado da resenha.

      Beijos,

      21 de setembro de 2017 às 14:27 Responder
  • Pamela Mendes

    Eu não conhecia esse autor, mas já quero ler os livros dele! Achei a premissa desse livro bem interessante, e fiquei super curiosa para saber o que aconteceu com o avô dele. Acho que esses diálogos do livro realmente são bem diferentes, mas acho que vou ficar meio confusa com eles.
    E achei muito legal o livro também ter várias referências de psicologia e de filosofia. O livro todo parece ser muito bom, adorei a dica!!
    Bjss ^^

    19 de setembro de 2017 às 22:43 Responder
    • Thaís Bueno

      Oi Pamela!

      Que bom que você gostou da dica e que assim como eu gosta de referências de psicologia e filosofia. Realmente os livros do Daniel Galera são muito bons.

      Beijos,

      21 de setembro de 2017 às 14:29 Responder
  • Marta Izabel

    Oi, Thaís!!
    Gostei muito da indicação da leitura, ainda não conhecia esse escritor o Daniel Galera, mais apoio e muito os nossos escritores nacionais!! Fiquei bem interessada na estória que é bem instigante!! Amei a resenha!!
    Bjoss

    24 de setembro de 2017 às 21:29 Responder
  • rudynalva

    Thaís!
    Confesso que não conhecia a obra nem o autor, porém fiquei bem interessada por ver que há referências de psicologia e filosofia, preceitos do budismo , primeiro porque minha formação acadêmica é Psicologia e depois porque gosto muito de estudar os preceitos budistas, só aí já fiquei interessada e ainda em ver que as diferenças entre a vida em cidades e metrópoles são abordados, bem como os problemas neuropsicológicos do protagonista também é bem desenvolvido, fiquei curiosa por fazer a leitura.
    Desejo uma semana maravilhoso!!
    “O primeiro passo para a cura é saber qual é a doença.” (Provérbio Latino)
    Cheirinhos
    Rudy
    TOP COMENTARISTA DE SETEMBRO 3 livros, 3 ganhadores, participem.

    24 de setembro de 2017 às 21:37 Responder
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