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Resenha – As Sobreviventes

Publicado em 4 de dezembro de 2017
- Gutenberg, Thriller

LIVRO ESPECIALMENTE INDICADO PARA quem busca uma trama cheia de mistério, aquele tipo de história em que nada é exatamente aquilo que parece. Ideal para ler em momentos em que precisamos de um thriller angustiante e surpreendente, capaz de nos enganar e nos fazer roer as unhas de tensão.

Quincy Carpenter quase foi morta. Durante uma viagem com os amigos para comemorar um aniversário, em um chalé no meio da floresta, o grupo passou por momentos assustadores. Tudo começou com um ruído, que se transformou em gritos histéricos e evoluiu para sangue respingando e escorrendo em grande quantidade dos corpos mutilados dos seus amigos – e até dela mesma. Mas ela sobreviveu, e mesmo após 10 anos seu subconsciente resiste em recordar de detalhes desta noite.

Parar não era uma opção. Parar era morrer. Então ela continuou correndo, mesmo quando o ramo de um arbusto espinhento se enrolou no seu tornozelo e roeu a carne. O ramo se esticou até Quincy conseguir se libertar dele à força de um chacoalhão. Se doeu, ela não tinha como dizer. Seu corpo já tinha sofrido mais dor do que podia suportar.

É comum, em pessoas que passam por uma situação muito aversiva, esse tipo de amnésia seletiva. É uma espécie de mecanismo de defesa ao qual nossa mente recorre quando vivemos algo que nos causa um sofrimento insuportável, então, para manter a sanidade, a gente esquece. Isso aconteceu com Quincy, ela parte esqueceu, parte se força para não lembrar, e segue a vida entre seu trabalho como blogueira culinária, namorada de um cara legal e sobrevivente de atentado. As coisas funcionam relativamente bem para ela dessa forma, mas o passado às vezes retorna para nos assombrar e quando Lisa, uma colega da jovem – que é também uma sobrevivente de uma tragédia semelhante – se suicida, ela volta a se sentir como a vítima que foi 10 anos atrás.

Com a ajuda do policial que a resgatou no dia da tragédia, a protagonista tenta lidar com essa perda e o que ela significa ao mesmo tempo em que uma outra sobrevivente bate à sua porta. Sam não tem papas na língua. É subversiva, direta e cáustica, do tipo de pessoa que cutuca feridas para vê-las sangrar e não perde tempo em deixar clara sua vontade de que Quincy retorne ao passado e se livre do véu que obscurece sua memória. Ela força a barra, pressiona por todos os lados, e estabelece uma relação com a protagonista que é repleta de incertezas, mentiras e manipulações.

Mas por que será que ela faz isso? Quais os motivos por trás de tanta urgência em trazer à tona memórias que causam tanto sofrimento? O que ela quer com isso, afinal? Essa é uma das dúvidas que Riley Sager planta em nossa mente e é em busca dessa resposta – entre tantas outras – que a gente passa as páginas de maneira aflita e angustiante.

Sou viciada em Xanax. E em vinho. Finjo não estar deprimida. E com raiva. E sozinha.

Narrado em primeira pessoa, a história permite que leitor penetre na mente da protagonista e acompanhe, ao mesmo tempo, sua tentativa de seguir em frente e seu iminente declínio, causado pelo excesso de ansiolíticos, álcool e desconfiança. Ficamos sem entender exatamente quem é quem até certo ponto do livro, quando flashbacks surgem como pequenas peças de quebra cabeça que a gente vai montando aos poucos. Mas não se enganem pensando que tudo faz sentido rapidamente, pelo menos não fez para mim.

Demorei para apontar suspeitos porque somos levados a seguir caminhos que podem não ser exatamente os corretos, e se o são, não podemos dizer que os motivos são reais. A gente constrói uma perspectiva que se estilhaça quando novos fragmentos do passado são revelados e nos guiam para outra direção… Só para percebemos que fomos novamente enganados. Essa sensação de andar em círculos permanece até que, mais próximo do final, o ritmo se acelera e as coisas começam a fazer sentido. Ainda assim, nos surpreendemos. Mesmo quando os fatos são jogados na nossa cara, a gente não quer acreditar.

Vou dizer uma coisa sobre detalhes – eles também podem ser uma distorção. Adicione uma quantidade muito grande e eles obscurecem a verdade brutal sobre uma situação.

As sobreviventes é o tipo de livro que não conseguimos largar. Não porque a trama seja frenética, porque ela não é. A narrativa começa lenta e aos poucos vai ganhando força, o que não vejo necessariamente como um problema e sim como uma chance dada para que o leitor se prepare para o que está por vir. Em minha opinião, é justamente este detalhe que nos mantém presos à história: ela vai nos amarrando aos poucos, de maneira sutil e sem que a gente perceba, e quando nos damos conta já estamos rendidos e ansiando pela próxima página assim como Quincy anseia pelo seu Xanax quando percebe que uma crise de ansiedade está se aproximando. Aliando a tensão provocada pela narrativa à edição feita pela Gutenberg – que tem fonte e gramatura do papel que facilitam a leitura – temos aqui uma obra que merece ser lida, devorada, digerida. Stephen King contou que este é o melhor thriller de 2017, e ouso dizer que ele pode estar certo.


Autor: Riley Sager
Lançamento: 2017
Editora: Gutenberg
Páginas: 336
Sinopse: “Ela corria por instinto. Um alerta inconsciente de que precisava continuar, independentemente do que acontecesse.”

Há dez anos, a estudante universitária Quincy Carpenter viajou com seus melhores amigos e retornou sozinha, foi a única sobrevivente de um crime terrível. Num piscar de olhos, ela se viu pertencendo a um grupo do qual ninguém quer fazer parte: um grupo de garotas sobreviventes com histórias similares. Lisa, que perdeu nove amigas esfaqueadas na universidade; Sam, que enfrentou um assassino no hotel onde trabalhava; e agora Quincy, que correu sangrando pelos bosques para escapar do homem a quem ela se refere apenas como Ele. As três jovens se esforçam para afastar seus pesadelos, e, com isso, permanecem longe uma da outra; apesar das tentativas da mídia, elas nunca se encontraram.

Um bloqueio na memória de Quincy não permite que ela se lembre dos acontecimentos daquela noite, e por causa disso a jovem seguiu em frente: é uma blogueira culinária de sucesso, tem um namorado amoroso e mantém uma forte amizade com Coop, o policial que salvou sua vida naquela noite. Até que um dia, Lisa, a primeira sobrevivente, é encontrada morta na banheira de sua casa com os pulsos cortados; e Sam, a outra garota, surge na porta de Quincy determinada a fazê-la reviver o passado, o que provocará consequências cada vez mais assustadoras. O que Sam realmente procura na história de vida de Quincy?

Quando novos detalhes sobre a morte de Lisa vem à tona, Quincy percebe que precisa se lembrar do que aconteceu naquela noite traumática se quiser as respostas para as verdades e mentiras de Sam, esquivar-se da polícia e dos repórteres insaciáveis. Mas recuperar a memória pode revelar muito mais do que ela gostaria.

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3 Comentários

  • Ludyanne Carvalho

    A resenha, como sempre, está incrível! 👏👏

    Não é uma leitura pra mim, não curto thrillers psicológicos…
    Já li excelentes comentários sobre King, então se ele diz que é o melhor de 2017 nem ouso discordar.
    Fiquei intrigada com Sam, ainda mais por cutucar as feridas. Certas coisas são melhores que fiquem esquecidas.

    Beijos

    4 de dezembro de 2017 às 12:20 Responder
  • Lili Aragão

    Oi Krisna, esse parece ser um suspense e tanto e mesmo tendo esse inicio mais lento o fato de fazer leitor ter trabalho pra traçar suspeitos é bem interessante. Fiquei super curiosa sobre a história e mesmo esse não sendo um tipo de livro que leia com frequência ficarei atenta a ele e surgindo a oportunidade vou me arriscar na leitura 😉
    Ótima resenha 🙂

    4 de dezembro de 2017 às 14:45 Responder
  • Paula Shima

    Oi Kris,
    As sobreviventes chamou minha atenção pela capa, pelo título e pela indicação do King… no começo da resenha que descreve o chalé, os corpos mutilados, gritos, e sangre muito sangre pensei credo! Mas ao longo da resenha percebi que o livro tem mais um quê de drama psicológico. Sam aparece pra desgraçar a vida da menina, ou não.
    Fiquei curiosa para saber o final!
    Um beijo

    9 de dezembro de 2017 às 19:49 Responder
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