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Resenha – Apenas um Garoto

Publicado em 1 de maio de 2017
- Arqueiro, LGBT, Resenhas

LIVRO ESPECIALMENTE INDICADO PARA quem busca uma história Young Adult com temática LGBT que aborde temas relacionados à sexualidade, preconceito, amadurecimento pessoal e necessidade de pertencimento. Ideal para ler naqueles momentos em que buscamos um livro único que permita uma leitura fluida, coesa e cheia de significado.

Apenas um Garoto é aquele tipo de livro que a gente lê e precisa de um tempo para absorver depois. Pelo menos comigo foi assim. Fiquei me perguntando: o que vou escrever sobre este livro? Sobre Rafe e toda a sua busca existencial? Cheguei à conclusão que devo falar sobre o que observei, sobre o que senti, mas sem me ater a opinião pessoal sobre todos os acontecimentos e escolhas. Será que isso é possível?

Antes de tudo, preciso dizer que este é um livro com temática homossexual. Caso você não tenha lido a sinopse, ou não tenha percebido as dicas sutis que constam na capa, adianto que a história é sobre um garoto gay e sobre o que isso representa para ele, para quem convive com ele. Mas, principalmente, é um livro sobre descobertas. Sobre ser humano.

Você pode ser o que quiser, mas não vai se sentir bem quando for contra o que é de verdade.

A história inicia com a chegada de Rafe à Natick, uma escola só para garotos. Ele, um adolescente que ‘saiu do armário’ há bastante tempo, se vê cansado de ser rotulado como apenas o ‘garoto gay’. Como se ele não fosse nada além disso. Como se sua orientação sexual o impedisse de desenvolver outros aspectos da sua vida, como se o fato de sentir atração por garotos o impedisse de se relacionar com eles de maneira fraterna.

Rafe passou a se sentir tolhido. Embora não tenha sofrido um bullying descarado, e mesmo contando com todo o apoio e aceitação dos pais, dos amigos, ele sentia que era impossível ser algo além do rótulo. Ele se sentia tão angustiado, que resolveu mudar de escola. Ele se sentia tão oprimido por ser rotulado que decidiu deixar sua cidade, a família, a melhor amiga, tudo isso para começar de novo, do zero. E assim o fez.

Chegando à nova escola as mudanças começam. Rafe se enturma rapidamente.  Começa a jogar futebol, se torna atleta, amigo das pessoas populares. Naquele novo ambiente ele se vê livre a ponto de poder usar o vestiário sem que os colegas se sintam constrangidos. Naquele novo lugar, ele percebe que pode ser tudo aquilo que deseja. E tudo dá muito certo, até que duas coisas importantes acontecem. Ele se apaixona. E, concomitante a isso, é instigado pelo professor Scarborough a escrever sobre a própria vida, colocando-se assim na posição de refletir sobre sua existência, sobre seus desejos e anseios, sobre seus medos e angústias. Sobre quem ele é de fato.

Não acho que ser gay seja uma maldição. Definitivamente não é. Mas sabemos que sair do armário traz um monte de coisas que tornam a vida mais difícil. Mesmo que você tenha pais maravilhosos e uma escola que o trate bem, a revelação acrescenta algo à sua vida. O pior é como todo mundo olha para você de um jeito diferente. Eu fiquei cansado de ser olhado.

O livro, narrado em primeira pessoa, mostra de maneira simples, irônica e muitas vezes divertida, todas as angústias vividas pelo protagonista. Como falei no início do texto, quando a gente começa a ler, é como se embarcasse em uma jornada existencial.  O autor envolve o leitor com maestria, e é capaz de promover reflexões acerca de diversas questões, tão atuais, tão presente nas nossas vidas. A necessidade de ser visto e de ser aceito pelos outros, de ser considerado popular, a dificuldade em ser rotulado de alguma maneira e a forma como nos sentimos estigmatizados quando isso acontece. Faz-nos pensar que às vezes, a vida se torna difícil mesmo quando contamos com suporte, com uma rede de apoio. Imagina, então, quando não dispomos de nada disso.

Apenas um garoto foi meu primeiro contato com a obra de Bill Konigsberg e, confesso, gostei demais. Embora seja um tema considerado polêmico por muitas pessoas, mesmo nos dias de hoje, é retratado de maneira muito sutil. Muito delicada. Permitindo que o leitor se envolva com os personagens, se apegue e seja empático, independente da sua opinião sobre o tema. Bom, pelo menos comigo foi assim. E é por isso que indico o livro, para quem gosta do tema, mas não somente para esses leitores. Indico para quem se permite ler sem preconceitos. Para quem se permite uma abertura capaz de acolher o outro, sua história, sua subjetividade, mesmo que esse outro seja um personagem adolescente de um livro de ficção americana. Mesmo que esse outro seja completamente diferente de nós.

Você sabia que as crianças LGBT são 8,4 vezes mais propensas a tentar suicídio do que as crianças hétero? Sabia que metade das crianças LGBT são rejeitadas pelos pais? Que 20 a 40 por cento dos adolescentes que moram na rua dizem que são gays, lésbicas ou transgêneros, e que metade deles já se prostituiu para se sustentar? Bem, foi esse tipo de coisa que aprendi, e o fato de não me identificar com nenhum desses problemas fez com que eu me sentisse o cara mais sortudo do mundo.


Livro: Apenas um Garoto
Autor: Bill Konigsberg
Lançamento: 2016
Editora: Arqueiro
Páginas: 256
Sinopse: Rafe saiu do armário aos 13 anos e nunca sofreu bullying. Mas está cansado de ser rotulado como o garoto gay, o porta-voz de uma causa. Por isso ele decide entrar numa escola só para meninos em outro estado e manter sua orientação sexual em segredo: não com o objetivo de voltar para o armário e sim para nascer de novo, como uma folha em branco. O plano funciona no início, e ele chega até a fazer parte do grupo dos atletas e do time de futebol. Mas as coisas se complicam quando ele percebe que está se apaixonando por um de seus novos amigos héteros.

 

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14 Comentários

  • Lili Aragão

    Oi Krisna, gostei da resenha e das descrições de sutil e delicado que você usou pra falar do livro e apesar desse não ser um livro que busco com frequência pra ler, achei interessante e só pela resenha já consegui criar empatia pelo protagonista Rafe. 🙂

    1 de maio de 2017 às 12:25 Responder
  • Cristiane Dornelas

    Gosto muito de livros com essa temática e esse parece muito bom mesmo. Gosto dessa ideia de uma história de descobertas, de se conhecer melhor e etc. E com uma narrativa divertida fica um pouco mais leve ver todos esses sentimentos por trás da história do personagem. As reflexões que o autor nos permite ter com essa história parecem bem legais. E é um tema que precisa ser discutido né? Sexualidade e como as pessoas ainda reagem a isso, o que cada um sente em relação a isso e todas as coisas envolvidas. Adoro leituras desse tipo e o livro está na minha lista de desejados.

    1 de maio de 2017 às 14:50 Responder
  • suzana cariri

    Oi!
    Gostei bastante dessa historia, achei bem interessante os temas que o autor trata nesse livro e como o livro acaba nos fazendo refletir sobre os rótulos que acabamos adquirindo, fiquei curiosa para conhecer a escrita dele e como ele desenvolve essa historia e se tiver oportunidade quero ler esse livro !!

    1 de maio de 2017 às 18:44 Responder
  • Aichha Carolina Pereira

    Oi Krisna,
    Não conheço a escrita deste autor, mas achei bem legal a temática deste livro e a busca existencial de Rafe. Acho que sai do clichê romance e entra num contexto bem maior sobre o lugar no mundo e os preconceitos vividos.
    Beijos

    2 de maio de 2017 às 00:51 Responder
  • Ludyanne Carvalho

    Nossa! É o tipo de livro que precisa ser indicado para o mundo. E não apenas ler, mas se colocar no lugar do personagem é de todos os que sofrem com esse tipo de preconceito.
    Bela resenha… Agora tenho mais um livro para colocar na lista. E indicar para os migos haha eles iriam amar essa escola.

    2 de maio de 2017 às 00:53 Responder
  • Ludyanne Carvalho

    Nossa! É o tipo de livro que precisa ser indicado para o mundo. E não apenas ler, mas se colocar no lugar do personagem é de todos os que sofrem com esse tipo de preconceito.
    Bela resenha… Agora tenho mais um livro para colocar na lista. E indicar para os migos haha eles iriam amar essa escola.

    2 de maio de 2017 às 00:53 Responder
  • Ludyanne Carvalho

    Nossa! É o tipo de livro que precisa ser indicado para o mundo. E não apenas ler, mas se colocar no lugar do personagem é de todos os que sofrem com esse tipo de preconceito.
    Bela resenha… Agora tenho mais um livro para colocar na lista. E indicar para os migos haha eles iriam amar essa escola.

    2 de maio de 2017 às 00:53 Responder
  • Caroline Garcia

    É um tema bem atual né? Mas confesso que não faz muito meu estilo de leitura.
    Estou vendo alguns comentários em relação a história e isso vem me deixando com um pé atrás também.
    Por isso, não é um livro que leria no momento.
    Mas a premissa dele é bem interessante sim! Quem sabe mais frente…?
    Beijos,
    Caroline Garcia

    5 de maio de 2017 às 20:17 Responder
  • Lana Silva

    Sempre vejo opiniões incríveis em relação a esse livro, e por isso fico cada mais interessada nessa leitura, no entanto ainda não tive oportunidade de adquiri-los. Hoje em dia esse tema e ainda considerado polêmico pelo fato de ainda incomodar muitas pessoas, o que gera certo desconforto, porém vejo conseguiu fazer com que o leitor se envolvesse com a situação do personagem e sentisse empatia pelo mesmo, se colocando em seu lugar. Estou super ansiosa por essa leitura, e estou com altas expectativas.

    6 de maio de 2017 às 11:23 Responder
  • Herica Lima

    Adorei a resenha.
    Já li vários livros com a mesma temática e sempre amei todos. Ainda não tinha lido nada sobre esse livro e me arrependo agora. Preciso ler no momento livros mais profundos. Quero me apegar de novo a um livro e acho que esse é uma boa escolha!

    7 de maio de 2017 às 01:08 Responder
  • Isabela Carvalho

    Achei muito legal a resenha!
    Nunca tinha ouvido falar, mas sempre estou a procura de livros diferentes assim… que bom que você indicou esse 😉
    E que triste ouvir sobre esses percentuais sobre crianças LGBT, dá uma tristeza só de pensar!

    7 de maio de 2017 às 23:22 Responder
  • Priscila Tavares

    Oi Krisna!
    Sempre quando leio uma resenha desse livro, vejo o quanto ele mexe com as pessoas. Eu não li porque foge do que estou acostumada a ler. Não vejo muitos livros desse estilo por aí. Acho que dá para contar nos dedos os que conheço.
    Beijokas
    Quanto Mais Livros Melhor

    14 de maio de 2017 às 02:52 Responder
  • Leituras da Ketellyn

    Oi, esse esta a um tempo na minha lista a um tempo, é um pena que não tenha mais livros desse genero. Pretendo ler em breve. Gosto da capa e da cor dela.

    20 de maio de 2017 às 02:27 Responder
  • Mariana Paiva

    Isso de busca existencial é comigo mesmo. Sou aquela menina que pensa em mil coisas, sabe?
    Sobre a vida, sobre as pessoas, sobre o universo, sobre a origem das coisas. Sobre o que eu sou, sobre o que eu posso ser. Mas sei (pela resenha) que (alguns dos) meus pensamentos são diferentes do dele. Eu não tenho lido nenhum livro com temática homossexual. Tem vários e eu estava até procurando algum pra ler. O fato do livro ser narrado em primeira pessoa é um ponto super positivo pra mim. Amo narrativa assim, pois além de ter a impressão que eu leio mais rápido eu me sinto mais próximo ao personagem. E essa capa é linda, assim como a lombar.

    31 de maio de 2017 às 15:56 Responder
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