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Resenha – A Traidora do Trono

Publicado em 18 de setembro de 2017
- Fantasia, Resenhas, Seguinte

LIVRO ESPECIALMENTE INDICADO PARA quem ama fantasias ricas e de criaturas místicas que se mostram excepcionalmente humanas. Para ler naqueles momentos em que queremos uma leitura diferente e viciante, perfeita para as ditas (e terríveis) ressacas literárias. Necessário já ter lido A Rebelde do Deserto (é possível conferir a resenha dele aqui)

Você já se afogou alguma vez?

Afogar-se é, resumida e literalmente, asfixiar-se em qualquer líquido. É mergulhar, embeber, afundar-se em algo. Há também o sentido figurado, que com o verbo nós buscamos fazer-nos esquecer, procuramos desaparecer, perdemo-nos em pensamentos e expressamos nosso fracasso: nos afogamos em bebida para de algum modo desafogar a tristeza, afogamo-nos em divagações e morremos afogados num copo d’água.

Vemos, portanto, que há muitas formas e motivos para nos afogarmos. Porém, este livro nos presenteia com uma forma pouco conhecida da supracitada asfixia que me fora muito apreciada: nós nos afogamos na (e com a) areia. E digo por mim e por todos os leitores que a falta de ar, o coração disparado e a quase falência de todos os órgãos não fora uma experiência de quase morte que eu gostaria de evitar. Não. Fora uma das melhores provas de que leitores são masoquistas e que, quanto mais mortais e extraordinários os livros forem, mais nós gostamos deles.

Em A Rebelde do Deserto, nós vimos a areia virar vidro e lâmina e se impregnar numa causa que não sabia outrora que participaria. Nós acompanhamos enquanto ela se aprimorava e afinava, tornando-se tudo o que poderia ser e muito mais. Levando todo o contexto para um âmbito que nos é familiar, se no primeiro livro ela fora uma estudante, aprendendo e conhecendo e explorando, neste livro ela começou a exercer sua função.

A areia teve de mostrar para quê veio.

Teve que mostrar tudo o que podia e ousava fazer.

Teve que mostrar sua utilidade, sua força, e o que estava disposta a realizar pelo deserto.

A duras penas, a areia teve de conhecer seus limites. Teve que ficar separada de outros grãos sem saber se havia chance de revê-los novamente.

Teve que trair o deserto e ficar obsoleta, mesmo que fosse por pouco tempo, mesmo que fosse do jeito mais doloroso possível, mesmo que não fosse escolha dela.

A areia passou por poucas e boas, mas não fora só de maus momentos que viveu esta jornada. De forma contrária ao primeiro livro, que começara sozinha e se unira aos grãos mais tarde, no início destas páginas a areia está agrupada e, mais tarde, está sozinha. E por mais que saibamos que grão sozinho voa mais facilmente, se adapta mais facilmente, explora cômodos e pessoas e situações que dois grãos não conseguiriam com tanta facilidade – mesmo que isso significa ficar sozinha e isolada – vemos a areia ser jogada de um lado a outro, em constante movimento e mudança, ora sozinha e ora com os seus.

E, no fim, ela e todos nós, leitores ávidos, tivemos de compreender que todo castelo de areia fora construído pela união de grãos e que, portanto, pode se desfazer se um grão ou dois não estiverem mais presentes. E se o castelo se desfizer, os grãos se espalharão. Ficarão perdidos, como se não houvesse mais uma causa para eles, como se não houvesse mais como compensarem a falta daquela construção. Contudo, a areia sabe que o castelo pode ser reconstruído. Alguns grãos podem faltar ou podem não mais ser os mesmos de outrora, e o castelo pode não ficar idêntico e nem ao menos parecido com o que fora antes, contudo, pode sim se reconstituir e se reerguer. Pode sim se levantar mais uma vez.

Pode sim aumentar e expandir e virar um forte, virar muralhas, construções gigantes, poderosas e irreverentes. É só questão de tempo, pois os grãos são mais do que capazes de começarem e lutarem mais uma vez.

Me afastei das barras de ferro e esfreguei os dedos, tentando recuperar a circulação nas mãos.
A areia que havia grudado nelas quando fingi tropeçar ao passar pelos portões vibrou em expectativa. Havia um pouco nas dobras das minhas roupas, no meu cabelo e na minha pele, colada ao suor. Aquela era a beleza do deserto. Ele estava impregnado em tudo, até na alma.

Eu, depois de ler tanta fantasia e distopias e gêneros diversos, cheguei a pensar que estes livros, esta Amani, este Jin, esta Shazad e Ahmed e sultão e tantos outros não conseguiriam me arrastar, me prender e levar como a maresia leva e movimenta quem quer que esteja mergulhando em suas águas. Veja bem, eu já me afoguei muitas vezes e vivi em muitas águas que não conhecia ou visitara antes. Não achei que aconteceria novamente e de modo tão devastador e inquietante. Eu tenho a experiência com afogamento, o conhecimento das águas que a fantasia utiliza e bóio muito bem quando não quero deixar-me mergulhar porque não é interessante o bastante.

Você provavelmente já foi a praias e piscinas e mergulhou em águas que não possibilitavam que seus pés tocassem o chão, que não davam pé. Já deve ter, inclusive, engolido água demais e aspirado-a pelo nariz, fazendo arder suas vias nasais e pulmões.

Engasgar-se com a água durante um mergulho pode acontecer com qualquer um, mesmo que você tenha vivido nas praias a sua vida inteira, mesmo que você tenha uma piscina no quintal de sua casa, mesmo que o costume e a frequência com que nade seja enorme.

Qualquer um pode se afogar. Qualquer um, não importa da onde venha, onde viva, como nade ou se já tenha se afogado antes.

É com alegria que digo-lhes que tanto A Traidora do Trono como A Rebelde do Deserto me afogaram. E preciso dizer que, com personagens incríveis, uma história bem escrita e um enredo viciante, você vai se afogar também, por mais livros e gêneros e personagens que já tenham lhe tirado o ar.

E vale a pena. É um mergulho que vale muito a pena.


Livro: A Traidora do Trono
Autora: Alwyn Hamilton
Lançamento: 2017
Editora: Seguinte
Páginas: 440
Sinopse:
 Amani Al’Hiza mal pôde acreditar quando finalmente conseguiu fugir de sua cidade natal, montada num cavalo mágico junto com Jin, um forasteiro misterioso. Depois de pouco tempo, porém, sua maior preocupação deixou de ser a própria liberdade- a garota descobriu ter muito mais poder do que imaginava e acabou se juntando à rebelião, que quer livrar o país inteiro do domínio do sultão. Em meio às perigosas batalhas ao lado dos rebeldes, Amani é traída quando menos espera e se vê prisioneira no palácio. Enquanto pensa em um jeito de escapar, ela começa a espionar o sultão. Mas quanto mais tempo passa ali, mais Amani questiona se o governante de fato é o vilão que todos acreditam.

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15 Comentários

  • Hérica Lima

    Ainda não li o primeiro da série então não li toda a resenha, porém sua finalização foi muito boa!
    Eu já estava querendo a um tempo ler essa fantasia. Estou precisando de um livro para mergulhar e me afogar como no final você falou!
    Beijos. Espero ler em breve.

    18 de setembro de 2017 às 18:08 Responder
    • Layla Magalhães

      H, você precisaaaaa ler essa trilogia logo! O primeiro livro é muito muito viciante e o segundo consegue ser ainda melhor. Juro, super indico de coração, tenho certeza que se você tiver uma chance de ler, vai amar.

      Beijos e até mais

      20 de setembro de 2017 às 11:58 Responder
  • Lili Aragão

    Oi Layla, mais uma ótima resenha e com metáforas super inteligentes e pertinentes, achei bem interessante ler e fazer o paralelo com o livro, com personagens e suas mudanças ao longo da história. Quero sim ler futuramente, acho as capas lindas, histórias no deserto me encantam e sua resenha inspirada me deixou chateada comigo mesma por ainda não ter lido haha… Espero conseguir remediar isso antes do lançamento do terceiro *__*

    18 de setembro de 2017 às 19:44 Responder
    • Layla Magalhães

      Lili!!! Você precisa ler mesmo, é incrivel, tanto esse quanto o primeiro, e passa rapidinho, viu? Super fluido e viciante, você só para quando acaba, e tem romance, fantasia, luta… é um grande livro!

      Espero que você goste da leitura tanto quanto eu! Espero seus comentários quando você ler, sim?

      20 de setembro de 2017 às 12:00 Responder
      • Lili Aragão

        Volto sim e te conto o que achei 🙂 😉

        21 de setembro de 2017 às 08:31 Responder
  • Ludyanne Carvalho

    Acabei de me afogar nesta resenha!
    Assim como os romances de época, fantasia é outro gênero que acaba ficando em segundo plano na minha lista; então é provável que esta leitura aconteça daqui algum tempo.
    Mas me deliciei com esta resenha, Layla. Você escreve de uma maneira tão poética, tão rica… Incrível! Senti vontade de conhecer mais sobre a história, os personagens, a areia…
    E essa capa é tão linda.
    Amei ler esta resenha!

    Beijos

    18 de setembro de 2017 às 21:27 Responder
    • Layla Magalhães

      Ludy, Ludy, Ludy…

      Você ainda me deixa mal acostumada com todos esses elogios.

      E o válido é que a leitura aconteça, não importa quanto tempo leve. Esses livros aqui são um dos que indico pra você tentar uma proximidade com a fantasia, porque eles são sensacionais. Juro que, se você der uma chance a eles, não vai se arrepender. Fora que as capas são mesmo muito lindas.

      Obrigada por mais um comentário maravilhoso, Lu! Beijos grandes no seu coração.

      20 de setembro de 2017 às 12:04 Responder
      • Ludyanne Carvalho

        Que fique entre nós, mas fui contratada pra elogiar suas resenhas maravilhosas.

        Sério? Vou pensar seriamente em fazer esta leitura.

        Beijos

        20 de setembro de 2017 às 12:51 Responder
        • Layla Magalhães

          Hahahaha eu não duvido nada! Só espero que estejam te pagando bem (com livros, no caso)

          Pense! Tenho certeza que você não vai se arrepender.

          26 de setembro de 2017 às 20:05 Responder
  • Pamela Mendes

    Eu estou simplesmente doida pra ler essa série!! Já comprei o primeiro livro, e estou só esperando ele chegar para começar (e ele vai passar na frente de todos os outros livros da fila hahaha). Já percebi que esse segundo livro também está perfeito, e acho que vou gostar muito dessa série. Eu acho que ultimamente está saindo tantos livros bons de fantasia, eu estou amando esses últimos que estão sendo lançados <3
    Bjss ^^

    22 de setembro de 2017 às 20:11 Responder
    • Layla Magalhães

      Você vai amar, P!!!! É muuuito bom.

      Assim que peguei o primeiro eu virei a noite lendo, de tão viciante. O segundo eu tive que ler mais devagar, já que era uma leitura conjunta, mas cada pausa que eu fazia era uma morte, porque não queria parar!

      Espero que você leia logo (passe na frente mesmo!) e venha me contar o que achou, tá bem?

      Beijos grandes

      26 de setembro de 2017 às 20:07 Responder
  • rudynalva

    Layla!
    Não li ainda nenhum dos dois livros, mas acho a protagonista o máximo, super destemida, vai em busca de seus objetivos e corajosa, porque não se intimida com pouca coisa.
    Tenho lido ótimas resenhas sobre essa duologia, inclusive a sua, mas ainda não tive oportunidade de acompanhar toda ousadia de Amani e as, digamos, aventuras por qual ela passa.
    Deve ser um livro cheio de ação.
    Desejo uma semana maravilhoso!!
    “O primeiro passo para a cura é saber qual é a doença.” (Provérbio Latino)
    Cheirinhos
    Rudy
    TOP COMENTARISTA DE SETEMBRO 3 livros, 3 ganhadores, participem.

    24 de setembro de 2017 às 21:23 Responder
    • Layla Magalhães

      É um livro cheio de ação mesmo, Rudy! E a Amani é muuuuito destemida, realmente o máximo, como você disse.

      Espero que você consiga ler em breve porque vale muito a pena!

      26 de setembro de 2017 às 20:08 Responder
  • Marta Izabel

    Oi, Layla!!
    Amei a sua resenha e sou muito apaixonada por livros de fantasias e esses livros são bem interessante!! Pena que ainda não conseguir ler nenhum dos dois!! Mas já fico feliz em ver resenhas falando super bem dessa estória incrível!! Amei a indicação!!
    Bjoss

    24 de setembro de 2017 às 22:16 Responder
    • Layla Magalhães

      Oi, Marta!

      Fico feliz que você tenha gostado da indicação. Ela é de coração e muito boa, então espero que você goste da leitura assim como eu, tá bem?

      Beijos grandes, linda

      26 de setembro de 2017 às 20:09 Responder

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