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Resenha – A Diferença Invisível

Publicado em 25 de agosto de 2017
- Editoras, Graphic Novel, Nemo, Resenhas

LIVRO INDICADO ESPECIALMENTE PARA quem se interessa por histórias reais, que de maneira lúdica e muito acessível falam sobre grandes questões da vida. Imperdível para  pessoas que gostariam de saber mais sobre o autismo, mais precisamente sobre a síndrome de Asperger e toda a repercussão disso na vida de quem é aspie ou de pessoas próximas. Para ler naqueles momentos em que além de aprender, apreender e compreender sobre as questões do outro, a gente está em busca de uma dose extra de empatia e esperança.

Olá, pessoal!

Aproveitando que hoje aqui na cidade rola o Clube do Livro do Grupo Autêntica, eu trouxe a resenha da obra que está sendo discutida agora em agosto. A diferença invisível é uma graphic novel que conta a história de Marguerite, uma jovem de 27 anos que embora pareça uma pessoa comum, tem muitas particularidades que despertam certa estranheza tanto nela  quanto nos outros. Através de um texto enxuto, simples e muito direto, apresentado ao leitor através de desenhos muito significativos, ao ler esta obra embarcamos em uma história que é tão importante quanto representativa, e que precisa ser lida por todo mundo.

Acordar com o despertador, vestir-se e ir para o trabalho. Socializar com os colegas no ambiente profissional, trocar ideias sobre amenidades e marcar para tomar aquele drink na sexta feira após o expediente. Lidar da melhor maneira possível com aqueles imprevistos que acontecem nos momentos mais inoportunos sem deixar que isso estrague o dia. Aproveitar o fim de semana para visitar os amigos e ali, naquela roda de pessoas que falam alto e gesticulam em excesso, ficar sabendo sobre as últimas novidades ou aproveitar para ouvir em alto e bom som aquela música que não sai da playlist no spotfy. Quem nunca gostou de fazer isso? Quem nunca achou todos esses comportamentos e situações muito comuns e até mesmo desejadas? Marguerite nunca se sentiu assim. Tudo o que pode ser ‘normal’ para outras pessoas, é uma causa de sofrimento extremo para ela.

Então o que fazer quando se percebe que aquela roupa, grossa demais, se torna insuportável de vestir? Ou que dormir ao lado da pessoa que amamos transforma nossa noite de sono em um tremendo pesadelo? E o que fazer naquele momento em que piadas são contadas e a gente se vê tentando compreender aquilo, tão banal, mas sem ter sucesso? Marguerite foi, aos poucos, buscando recursos para lidar com tudo isso. Usava sempre roupas com características específicas, tendia a repetir aquilo que lhe trazia prazer, mesmo que a repetição fosse vista como excessiva para alguns; buscava manter hábitos que, mesmo incomodando aos demais, lhe traziam certa paz de espírito (preferia almoçar sozinha, gostava mais de ficar em casa com seus bichinhos do que ir para festas, restringia determinados alimentos e fugia de barulhos altos); tentava manter um ‘padrão’ de comportamento socialmente bem aceito – mesmo que isso significasse sofrer em silêncio – e ela sofreu. Sofreu tanto até que precisou buscar ajuda. Mais uma vez.

A história de Marguerite, que na verdade é a história da própria Julie Dachez, mostra o quanto o autismo ainda pode ser um bicho de sete cabeças. Menosprezado por uns, super polemizado por outros, o espectro autista é uma condição que acomete cerca de 1% da população mundial e que mesmo assim ainda permanece mais velada do que deveria. Por que será que isso acontece? A proposta dessa obra é justamente responder questões assim, além de colocar o leitor na posição de conhecer mais não somente sobre a síndrome de asperger, mas também sobre o que isso pode significar para quem a vivencia todos os dias.

Utilizando um toque de cores distintas nos desenhos para representar o estado emocional da protagonista,  com traçados muito limpos e que conseguem, através dos quadrinhos, demonstrar de maneira impecável todos os altos e baixos da personagem:  do seu sofrimento diário ao processo de fortalecimento emocional, esta obra tem tudo para agradar leitores de qualquer idade. Ainda mais se e a pessoa estiver em busca de uma narrativa capaz de não somente elucidar, mas também despertar aquele desejo de aprender mais sobre o assunto. Aqui vale comprar para dar de presente, para deixar na biblioteca do trabalho, para compartilhar com os amigos ou simplesmente para usar como guia de consulta eventual. O que importa é ler.

Além de tudo, acredito que é impossível não se reconhecer em um momento ou outro dessa história. Seja no papel daquele que julga as particularidades do outro – estranhas, porque são diferentes das nossas – ou no papel daquele que mesmo não entendendo o que de fato tudo aquilo significa, estende a mão e aceita o outro como ele é. Pode ainda ter aquele leitor que não se reconhece nessas duas possibilidades, mas que busca uma terceira maneira de se conectar com a história, ou uma quarta, ou uma quinta… O que vale aqui é se permitir absorver tudo aquilo que A Diferença Invisível se dispõe a compartilhar, e a partir daí tentar transformar o mundo – mesmo que de maneira sutil – em um lugar menos hostil e preconceituoso.

É a vocês que eu gostaria de dedicar esta HQ.
Vocês, desviantes.
Os “assim foi demais”, ou os “assim não foi o bastante”.
Que, por sua mera existência, transgridem as normas.
Você que é um dedo do meio à imposição da “normalidade”.
Não há nada a que curar em vocês, nada a mudar. Seu papel não é se encaixar em um molde, mas sim ajudar os outros – todos os outros – a sair dos moldes em que estão presos.
Você não está aqui para seguir um caminho predefinido, mas, ao contrário, para seguir o seu próprio caminho e convidar aqueles ao redor a pensar fora da caixa.
Ao abraçar sua verdadeira identidade, aceitando sua singularidade, você se torna um exemplo a ser seguido. Você tem o poder de romper essa camisa de força normativa que sufoca a todos nós e nos impede de viver juntos com respeito e tolerância.
Sua diferença não é parte do problema, mas da solução.
É um remédio para nossa sociedade, doente de normalidade.

Julie Dachez

 


Título: A Diferença Invisível
Autor: Julie Dachez e Mademoiselle Caroline
Lançamento: 2017
Editora: Nemo
Páginas: 200
Sinopse: Marguerite tem 27 anos, e aparentemente nada a diferencia das outras pessoas. É bonita, vivaz e inteligente. Trabalha numa grande empresa e vive com o namorado. No entanto, ela é diferente. Marguerite se sente deslocada e luta todos os dias para manter as aparências. Seus movimentos são repetitivos e seu universo precisa ser um casulo. Ela se sente assolada pelos ruídos e pelo falatório incessante dos colegas. Cansada dessa situação, ela irá ao encontro de si mesma e descobrirá que é autista – tem a Síndrome de Asperger. Sua vida a partir daí se transformará profundamente.

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9 Comentários

  • Cristiane Dornelas ➗ (@crisdornelassil)

    Não sou muito de ler coisas assim mas adorei todos os sentimentos e a questão que ele trabalha. Essa doença ainda é tão pouco falada né? Mas é legal poder ter um pouquinho de compreensão assim lendo uma história do tipo. Dá pra entender um pouco melhor como é a vida da pessoa, o que tem de diferente e a gente aprende a não julgar também né.
    Achei legal essa diferença das cores e humores que as ilustrações acabam mostrando. Fica uma coisa bem interessante poder perceber e interpretar além, do texto.
    Parece bem legal.

    25 de agosto de 2017 às 12:16 Responder
  • Ludyanne Carvalho

    Ainda não li, mas já estou apaixonada.
    Uma leitura tão necessária no mundo em que vivemos, sinto que tem muito a nos ensinar. Não apenas sobre o autismo e asperger, mas sobre a vida e forma como olhamos o outro.
    E as palavras da Julie… me emocionaram.
    Obrigada por esta indicação. ❤

    25 de agosto de 2017 às 14:13 Responder
  • Lili Aragão

    Oi Krisna, a ideia de entregar ao leitor uma graphic novel sobre esse tema é muito bacana, acho que a história contada através de imagens deve tornar mais leve a compreensão do tema. Eu acho importante tentarmos entender e aceitar as pessoas como são. A resenha tá linda, a dica adorável, o fato dessa história ser baseada em uma história real é muito interessante e eu tô apaixonada pelo seu gato haha <3 Amei as fotos 😉

    25 de agosto de 2017 às 15:02 Responder
  • Bruna Bento

    caramba, ser diagnosticada com autismo aos 27 anos! nao sabia que rolava diagnostico tao tarde assim.
    o cachorrinho da marguerite aaa <3
    graphic novel é sempre otima pedida! e com um tema que tem tanta coisa pra gente aprender, so fica melhor ainda!
    gostei da arte tbm!

    25 de agosto de 2017 às 23:12 Responder
  • Hérica Lima

    Adorei esse quadrinho!
    Nunca tinha visto nenhum resenha e adorei.
    As imagens estão espetacular e a história parece ser bem real mesmo. Sobre pessoas que não se encaixam no mundo e tentam descobrir dentro de si mesma um motivo para seguir em frente!
    Gostei bastante. Vou ler em breve quando comprar.

    26 de agosto de 2017 às 11:14 Responder
  • Alison de Jesus

    Olá, por meio de uma bela história a autora faz com que conheçamos mais sobre o universo de quem é portador de autismo. As gravuras parecem expressar os sentimentos com clareza, deixando a experiência de ler a obra ainda melhor. Beijos.

    27 de agosto de 2017 às 20:39 Responder
  • Pamela Mendes

    Eu gosto de ler essas HQs com temas mais séries. E eu nunca li nenhum livro em que o protagonista é autista. Eu não conheço muito sobre o autismo, mas tenho bastante vontade de saber mais sobre o assunto. Gostei bastante do tema desse livro, e fiquei com muita vontade de ler ele. E achei muito legal o livro contar a história da autora. Adorei a dica!
    Bjss ^^

    28 de agosto de 2017 às 00:38 Responder
  • Marta Izabel

    Oi, Krisna!!
    Gostei muito de conhecer esse graphic novel!! As ilustrações estão lindas demais e a estória é bem interessante!! Acho que ainda não li nenhuma estória seja livro ou graphic novel de um personagem autista, eu particularmente fiquei maravilhada com essa edição linda!!
    Bjoss

    31 de agosto de 2017 às 00:49 Responder
  • Isabela Carvalho

    Oi Krisna 😉
    Amei o livro A Diferença Invisível, muito obrigada pela indicação!
    Deu pra ver só pelos seus comentários que eu vou adorar o livro, apesar de não ser muito acostumada a ler HQs (um hábito que eu estou tentando mudar).
    Acho que nunca li um livro escrito por um(a) autor(a) autista, por isso achei bem interessante e fiquei curiosa para saber como a história vai ser contada, e quero saber mais sobre essa doença.
    Adorei sua dica, muito obrigada e ótima resenha 😉
    Bjos

    31 de agosto de 2017 às 18:46 Responder
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